Sábado Literário

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Sábados são sempre bem-vindos e trazem - não importando o clima lá fora - a alegria do lazer saudável e o descanso para aquele que viveu uma semana de correrias e muito trabalho. Portanto, com sol, chuva, frio ou vento, pois  a poesia vive a beleza de cada estação, teremos aqui um encontro semanal  com a literatura, em  suas mais variadas formas e estilos e principalmente através do sentir de cada convidado.

Hoje, entre uma xícara de café e uma boa prosa, - que na verdade são trovas - trazemos  Aimberê Engel Macedo,  mineiro de Alfenas, mas radicado em Barueri, SP. Trovador dos bons,  deliciosamente comprometido com a leveza,  o humor e  a harmonia, Aimberê nos transmite instantes de muito prazer e descontração.

Falando em café, deliciem-se com  ”Café Trovado e Mordido”  e com  “A Bela Alfenas”,  uma linda  homenagem que o autor faz a sua terra natal.

* * * * *

CAFÉ TROVADO E MORDIDO

Foi trazido pro Brasil

e plantado ele vingou,

fez da pátria, mãe gentil,

num minuto se espalhou.

Das arábias ele veio

pra deitar sua raiz,

desde então foi um esteio

das riquezas do País.

Quando ponho o pó na água

no limite da fervura

some toda minha mágoa

embutida na amargura.

Eu confesso que o café

me seduz com seu perfume

que penetra qual rapé

faz me aceso: Um vaga lume!

Acordar de manhã cedo

já sentindo aquele aroma

traz de volta o velho enredo

de outro dia que se soma.

Rosca, pão e ovo mexido;

broas, pão de queijo e até

yogurte bem batido

nada são sem o café.

Quando cai em minha boca

um café de qualidade

a papila fica louca

na maior felicidade.

Se entregando ao prazer

do pretinho tão gostoso

não consegue se conter

salivando em pleno gozo.

Muitos gostam mais de chá

uma herança dos Chineses

mas igual café não há

só na empáfia dos Ingleses.

Vejam só que coisa boa

esse tal de cafezinho

junta gente que está à-toa

pra falar de algum vizinho…

E lembrar essa beleza

do vermelho lá no pé

que completa a realeza

da flor branca do café.

Com a chegada desse “espresso”

o café virou “alguém”,

mesmo quando com excesso

já não tem pra mais ninguém.

Sendo espresso, digo é gafe,

adoçá-lo com que for,

em Paris da diva Piaf

no café põe-se licor.

Hoje em dia só se fala

nesse tal “café gourmet”,

bem tratado nos embala

tanto quanto um bom CD.

Nesse mundo dominado

por miséria e por conflito

o café é um aliado

do coitado e do aflito.

Requintado como é

necessita de cuidados

desde quando está no pé

aos seus “blends” variados.

A colheita é um momento

delicado, já se sabe,

o peão pede um aumento

e seu chefe quer que acabe.

Adubá-lo com ciência

combatendo as suas pragas

multiplica a competência

pra deixar as contas pagas.

O seu preço é regulado

pela bolsa de valores,

como sempre é derrubado

pelos fundos “vendedores”.

Só se houvesse a tal OPEC

ajustando a produção

para o preço virar cheque

bem polpudo em nossa mão.

Falo como produtor

sempre envolto em mil apuros,

apesar do seu labor

têm nos bolsos grandes furos.

Quem produz ao céu só pede

que a geada passe ao largo,

muito embora o que sucede:

“Muito fruto, preço amargo”.

Crença há que o produtor

abra sempre o seu bué…

quando o rico comprador

paga pouco em seu café.

São calúnias deslavadas

fazer dele chorão mor,

rolam lágrimas minguadas

comparadas ao suor.

Para o leigo estou abrindo

as janelas desse mundo

pra que saiba que estou rindo

mas que o choro está no fundo.

É verdade que a ganância

não nos deixa ver à hora

de vender em concordância

com a escassez no mundo afora.

Muitas vezes vem o medo

que nos faz precipitados:

ao vendermos muito cedo

sacas nobres por trocados.

Ser atento e um pouco liso

pra fugir da hora errada,

pois senão o prejuízo

ganhará de goleada.

Sendo agora bem sincero

nada como a tal da sorte,

pois juntar samba e bolero

nem Sansão que era bem forte…

Por café sinto paixão

como fosse namorada,

sempre espero que ele não

fique ausente na florada…

* * *

A BELA ALFENAS

Eu nasci na bela Alfenas

Tive infância de moleque,

Pés no chão junto às morenas

Que se abriam feito um leque.

Discorriam sobre tudo

Que lhes vinha ao coração,

Sempre em pauta algum sortudo

Que diziam: “Era um pão”!

Com meus primos eu brincava

De manhã até de tarde,

Mineirinho eu aprontava

Sem fazer nenhum alarde…

Os cigarros “afanados”

Pra fumar lá na piscina

Nos faziam tão culpados,

Mas somente até a esquina…

Dona Fany enraivecida

Com as minhas travessuras

Açoitava o chão, vencida…

Mas jurando penas duras…

Eu deixava o respirar

Em suspenso sob a cama,

Só voltava a relaxar

Quando enfim findava o “drama”.

Quantas voltas eu andei

Lá na praça da matriz,

Mil gibis ali troquei

Ocupado em ser feliz…

Bela Praça da Bandeira

Bem ao lado da “Efoa”,

Tinha pérgula faceira

E uma arena sem Leoa…

Aos domingos, Doze em ponto,

Matinê lá no cinema!

Ver o Zorro mais o Tonto

Resolvendo algum problema!

Ir ao campo da Cruz Preta

Assistir ao futebol,

Um programa bem porreta

Pois o time era de escol!

E o apito da Fumaça

Que chegava a estação!

Trem de ferro era cachaça

Da mais fina curtição…

As internas do Sagrado

Coração do ”bom” Jesus!

Judiavam do coitado

Que as mirassem em plena luz!

Seu Tavico me levava

Lá no tal Sapucaí,

O dourado ele fisgava

Eu fisgava o lambari…

Clube Quinze que mantinha

Nossos velhos carnavais,

Muitos galos numa rinha

Muita briga entre rivais:

Piazzalungas e Siqueiras

Não podiam nem se ver,

Se pegavam por besteiras

E os motivos…? Vai saber…

Não me esqueço o Fumanchú

Que fazia propaganda,

Megafone tipo Itú

Mas tão frágil feito um “Panda”.

Quando havia voleibol

Lá na quadra dos “fardados”,

Minhas primas sob o sol

Com seus saques enfeitados!

Era a Sara mais Raquel

Que ao jogar mostravam raça!

Sempre em busca de um troféu

Com leveza e muita graça!

“Menina moça” alcunhada

A boate do Lomonte!

Para nós rapaziada,

Das paixões foi ela a fonte…

Lembro a “Banda” do S’Eurico

No coreto lá da praça!

Quando passo lá eu fico

Preso à onda que me passa!

Lá de casa eu avistava

A chegada do avião,

Era um “Douglas” que pousava

Decolando o coração!

E o “Campinho” das quitandas

Sobre a mesa circular,

Com cadeiras nas varandas

Para a gente conversar!

Não há como não lembrar

Da família reunida

Na “Piscina” a celebrar

Os prazeres que há na vida.

Lá no Rancho “Marta Rocha”

Com cuidados de primeira

Seu Elísio, acesa a “tocha”,

Nos levava à cachoeira.

Sobre a ponte das amoras

Já no fim da madrugada

Lua cheia em altas horas

Dando adeus para a moçada!

Velho mestre da poesia

Zé de Àvila escultor,

Entalhando ele esculpia

Belos versos para o amor!

Quando lembro tudo isso

Vejo o pouco que contei,

Mas aos poucos pego o viço

E me estendo no que eu sei.

* * *

Leia mais Aimberê Engel Macedo acessando:

http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=33232

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