Drogas levam jovens indígenas em Tabatinga ao suicídio, denuncia cacique

Vladimir Platonow
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Terra Indgena Tukuna Umariaçu - O cacique Manoel Nery Tikuna fala à reportagem da EBC. Ele chefia uma das aldeias do povo Tikuna
Terra Indígena Tukuna Umariaçu – O cacique Manoel Nery Tikuna fala à reportagem da EBC. Ele chefia uma das aldeias do povo Tikuna

Tabatinga (AM) – A mistura explosiva de cocaína, álcool e falta de trabalho está provocando uma rápida deterioração da vida e dos costumes em uma área indígena na cidade amazonense de Tabatinga e levando dezenas de índios ao suicídio. A avaliação é do cacique Manoel Nery Tikuna, que chefia a aldeia Umariaçu 2.

De 2001 para cá, segundo ele, mais de 40 jovens se mataram na aldeia, que abriga 3.640 índios da etnia Tikuna, às margens do Rio Solimões. O número de suicídios foi maior entre 2001 e 2004, quando 36 índios se mataram, de acordo com o cacique, e depois parou até 2006. Mas novos casos voltaram a acontecer em 2007, com duas mortes, e outras duas em fevereiro deste ano, segundo Manoel Nery.

“Isso é uma coisa que entristeceu a comunidade, porque a juventude está nesse caminho”, comenta o líder tikuna, em entrevista à Agência Brasil e à TV Brasil. “Essa droga nós não conhecíamos. Chamam de papeleta. Eles têm desejo e compram. Vendem enrolado em um papel e eles usam. É cocaína.”

Mas o número de mortes por suicídio varia segundo outras fontes ouvidas. Para o administrador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Tabatinga, Davi Félix Cecílio, as mortes por esta causa em Umariaçu 2 foram 16 no ano passado.

Já a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) não registrou nenhuma morte por suicídio na mesma aldeia em 2007, mas contou 19 suicídios em toda a região do Alto Solimões, o que representa um brutal aumento em relação aos anos anteriores. Segundo a Funasa, em 2003 houve seis suicídios; em 2004, dois; em 2005, seis; e em 2006, cinco.

Para o administrador da Funai, existe uma relação entre o consumo de álcool e cocaína e a morte dos jovens indígenas. “Ele cheira, toma, come e aí se suicida. Você não segura essas pessoas, ficam muito rebeldes, violentas, agressivas, transtornadas”, relata Cecílio. Segundo ele, é feita uma mistura de cachaça, coca-cola e cocaína, que depois é ingerida.

A droga que pode estar contribuindo para o aumento dos suicídios é facilmente encontrada na cidade de Tabatinga, que forma com a colombiana Letícia um dos maiores corredores de tráfico no continente. Segundo o cacique, chega à aldeia por pessoas da cidade: “Tem um cidadão em Tabatinga que vende para um Tikuna, que traz aqui”.

Ele diz que sabe quem são as pessoas envolvidas, mas tem medo de represálias. “Eu como cacique tenho medo de informar. Porque não tenho segurança. Depois se acontece algo para o meu lado, ninguém toma providência. Quando a gente leva ao conhecimento dos policiais, civis, militares e federais, ninguém quer tomar providência. Esse é o medo que a gente tem”, relata.

Segundo o cacique tikuna, um em cada cinco jovens da aldeia usa drogas e isso está modificando as relações familiares e comunitárias: “Não tem mais horário para os nossos filhos voltarem para casa. Saem de tarde e 1 hora, 2 horas da madrugada ainda estão aqui na rua.”

Uma dessas noites foi fatal para um adolescente de Umariaçu 2 em 2007, embora o seu caso não esteja contabilizado pela Funasa. O jovem Roberto Bento Angelo Filho se enforcou em 11 de novembro, em uma árvore no quintal de sua casa, aos 14 anos. Ele não deixou nenhum bilhete e nem disse o motivo.

Para o pai, que deu o próprio nome ao filho, é difícil entender o que aconteceu, pois o adolescente não usava drogas. “Ele saiu e não voltou à noite”, conta. “Olhei pela janela e ele não estava na rua. Esperei até o amanhecer. Às 5 da manhã olhei atrás da casa e ele estava morto. Amarrou uma corda no pescoço e se matou. Por tristeza.”

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