Vale do Javari passa por “genocídio silencioso”, diz líder indígena

Manaus – Um grupo de seis lideranças indígenas do Vale do Javari (AM) estará em São Paulo segunda-feira (2) para tratar de questões relacionadas à saúde dos povos indígenas que vivem nessa região, juntamente com representações de organizações governamentais e não-governamentais, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

De acordo com o presidente do Conselho Distrital de Saúde do Vale do Javari, Jorge Marubo, eles também vão se encontrar com uma equipe de advogados que irá orientá-los a respeito das providências que pretendem tomar para tentar reverter o quadro de doenças, como hepatite, que continua atingindo os índios que vivem no local e causando mortes.

Marubo informou que, nas últimas semanas, foram reunidos vários documentos que mostram a situação preocupante em que se encontra a saúde das populações do Vale do Javari. Além disso, ele ressaltou que o maior objetivo dessa viagem é pedir apoio à Organização das Nações Unidas (ONU), por meio de sua representação instalada na capital paulista.

“Reunimos muitos documentos, incluindo denúncias, relatórios do Conselho Nacional de Saúde Indígena e vários termos de compromisso e de ajustamento de conduta feitos pelo Ministério Público relacionados a promessas de melhoria e atenção à saúde de nossos povos e que não foram cumpridos. Todos esses documentos serão apresentados aos advogados para que possamos entrar com essa ação contra o Estado brasileiro na ONU”, declarou o indígena.

Na avaliação das lideranças, o Vale do Javari vivencia um verdadeiro “genocídio silencioso”, que precisa ser revertido o quanto antes, sob pena de se extingüirem em poucas décadas os indígenas que vivem na região.

“Estamos longe dos meios de comunicação e isolados. O que está acontecendo no Vale do Javari é um genocídio silencioso porque muita gente tem morrido e de fato ninguém está fazendo nada. Essa é nossa última alternativa. Se desta vez o problema não for resolvido, daqui a 20 ou 30 anos os índios do Vale do Javari não vão mais existir”, acrescentou Marubo.

Representando a etnia Maioruna, o indígena André Waldick reconheceu as dificuldades encontradas para os trabalhos no Vale do Javari, mas destacou que isso não deve mais ser motivo para que as providências necessárias deixem de ser tomadas. Para ele, é preciso organizar as ações de saúde.

“Os trabalhos desenvolvidos para nossa região vêm sendo feitos de forma desorganizada. É difícil trabalhar numa região como a nossa, que é a segunda maior terra indígena do país. As comunidades são dispersas em quatro calhas de rios e têm pelo menos seis línguas diferentes. Temos tentado orientar os órgãos competentes e que são responsáveis pela saúde indígena, mas não temos sido ouvidos. A conseqüência disso está aí para quem quiser ver, que são as mortes registradas e os problemas de saúde alarmantes”, disse.

De acordo com o Distrito de Saúde Indígena do Vale do Javari, o problema com a saúde dos povos indígenas se arrasta há décadas. Segundo eles, o primeiro caso de hepatite registrado na região se deu em 1985 e até então o problema ainda não foi contido.

“As autoridades sabem de tudo isso. Agora, nosso último recurso é embarcar para São Paulo com uma comissão de lideranças do Vale do Javari para pedir ajuda da ONU. Se for o caso, vamos entrar com uma ação contra o Estado brasileiro. Estamos cansados de ver as mortes dos nossos índios. O Estado brasileiro tem que ser responsabilizado por essa situação que está ocorrendo no Vale do Javari”, concluiu Jorge Marubo.

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Amanda Mota
Repórter da Agência Brasil

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