Em Bogotá, nem todos consideram Uribe o salvador da Colômbia

Bogotá (Colômbia) – Depois do resgate pacífico de Ingrid Betancourt e outros 14 reféns políticos, um dos acontecimentos mais comemorados mundialmente nos últimos tempos, Álvaro Uribe colou em si o rótulo de presidente capaz de derrotar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A popularidade está nas alturas, conforme demonstram pesquisas divulgadas nos últimos dias. Mas, com alguma paciência, é possível encontrar colombianos que não estão dispostos a dar-lhe o terceiro mandato – o atual termina em 2010 e deve ser o último, se a Constituição for respeitada.

Giovanni Pinzón (foto), produtor de TV e cinema de 36 anos, faz parte da minoria que não votou em Uribe em 2006 – ele venceu com 62% dos votos. Embora reconheça que o presidente fez “uma coisa magistral, que foi recuperar os reféns de forma limpa”, ele acha que “a imprensa internacional vê uma coisa e nós vemos outra”.

Pinzón critica Uribe pelo “alto índice de desemprego e falta de oportunidades”. A taxa de desemprego no país foi de 11% em abril, mantendo-se estável em relação ao mês anterior e a abril de 2007, segundo relatório da Prefeitura de Bogotá, cidade administrada pela oposição (leia entrevista concedida pelo prefeito à Agência Brasil). O índice é superior ao brasileiro, mas vem caindo desde 2002, quando Uribe assumiu a Presidência. Na época, era de 16%. A tendência de queda, no entanto, não é exclusividade colombiana. Vem ocorrendo na América Latina e Caribe como um todo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O mesmo documento da Prefeitura de Bogotá aponta desaceleração econômica, com previsão de crescimento de 5% neste ano, contra 7,5% no ano passado. Se o Produto Interno Bruto (PIB) colombiano sofrer essa queda acentuada, deve ficar num patamar semelhante ao brasileiro, cujas estimativas têm variado entre 4,5% e 5%, dependendo se é feita por analistas do mercado ou pelo governo.

Em sua crítica a Uribe, o produtor audiovisual menciona ainda “pequenos escândalos como o da reeleição, questionada pela Corte Suprema” – o presidente é acusado de comprar votos para aprovar a emenda constitucional que permitiu disputar o segundo mandato. Ele também acha que Uribe errou ao focar nas privatizações.

Um dos temas em debate atualmente na sociedade colombiana é a privatização da água. Mariluce Herrera Ruiz, que recolhe assinaturas para a realização de um referendo contra a iniciativa, acha que Uribe usa o combate às Farc para “esconder muitas coisas que a cidadania colombiana precisa saber”, como o crescimento da pobreza e o sofrimentos dos cidadãos com problemas econômicos.

O aposentado Gustavo Rodriguez, de 68 anos, discorda. Considera Uribe “um tipo trabalhador, honesto, que mostrou interesse para solucionar os defeitos desse país”. Rodriguez não vota há muito tempo porque acha que “políticos são todos ladrões”, mas considera a hipótese de voltar às urnas se Uribe concorrer ao terceiro mandato. Pesquisa divulgada ontem mostra que se a eleição fosse agora, metade dos colombianos não votaria se o atual presidente não concorresse.

Uma jovem de 15 anos que vende sorvete em frente à Catedral de Bogotá conta que quando estava a caminho do local, no ônibus, passageiros comentavam que “Uribe é uma porcaria porque não nos ajuda, mas foi ele quem resgatou Ingrid”. A principal reclamação dela é de que os ambulantes não têm sossego. “A polícia está nos incomodando, mandando embora, dizem que estamos invadindo o espaço público. Oferecem outros lugares, mas temos que pagar aluguel”.

A jovem disse seu nome, mas como revelou preocupação com o fato de ter criticado o governo e a polícia, mesmo tratando-se de uma agência estrangeira trabalhando num país democrático, a identidade foi omitida e as fotos não foram publicadas.

Também será omitido, a pedido dele, o nome de um dos soldados que cuidam da segurança do Congresso – são vários, mesmo num fim de semana. Ele diz que agora a população está tranqüila e mais turistas freqüentam Bogotá, porque não têm mais medo. Dá as costas para revistar cuidadosamente uma pessoa que vai entrar na Casa Legislativa e volta para afirmar que o país ficou mais seguro com Uribe, cuja política para o setor se chama “segurança democrática”.

Perto dela, outra menina tenta ganhar a vida como ambulante, só que vendendo algo bem mais inusitado: formigas do tipo  tanajura. São cozidas com sal, tostadas e depois vendidas em saquinhos que variam de 2 mil a 10 mil pesos (cerca de R$ 2 a R$ 10). 

Prostrado na escadaria da mesma igreja, Alberto Canales, peruano de 31 anos, é o que menos reclama, embora aparente ser o que teria mais motivos para fazê-lo. Depois de já ter rodado a América do Sul toda depois que os pais se separaram, tenta a vida na Colômbia há um mês e dorme num banco de rodoviária, porque não teve dinheiro para chegar ao Panamá, um eldorado no imaginário dele.

“Meu objetivo era o Panamá, pois tenho amigos lá que disseram que se pode ganhar até 30 dólares por dia (cerca de R$ 48). Mas a Colômbia estava no caminho, aqui terminou o dinheiro e preciso trabalhar”, conta o peruano, que arrumou um trabalho para ganhar 10.000 pesos por dia, o equivalente a R$ 10, mas o bico já acabou. Era início da tarde de domingo e ele estava sem comer desde o dia anterior, sem ânimo. Mas disse que no dia seguinte voltaria à luta.

“A Colômbia tem terras férteis, muita comida, tem de tudo. É como no meu país. Também temos de tudo, mas as pessoas vivem se queixando. Elas não sabem procurar as coisas”.

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Agência Brasil

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