Hillary Clinton: um divisor de águas*

Hillary Clinton: um divisor de águas*

 

© DE João Batista do Lago1

 

Descontado o show business (mundo do espetáculo), uma característica norte-americana, sobretudo no que se refere às campanhas político-eleitorais, pode-se assegurar que, somente a partir de ontem, 26, com a efetiva entrada da senadora Hillary Clinton (PD), com o seu discurso de apoio ao senador Barack Obama (PD), o “caminho” deste está definitivamente consolidado como candidato à Presidência dos Estados Unidos. Pode-se inferir, após o discurso de Hillary, que Obama, agora, tem chances reais (e não somente potenciais) de chegar à Casa Branca.

Contudo, não é minha intenção ficar pura e tão-somente no campo da análise eleitoral que, de fato é importante – seja para o Estados Unidos; seja para o mundo –, mas subverter este campo analítico, isto é, fazer um sobrevôo focado a partir da abordagem discursiva de Hillary, que, aos meus olhos, ficou subsumida pela sociedade do espetáculo montada pelos novos sofistas, os marqueteiros, preocupados apenas com a construção da imagem positiva, ou seja, com a elaboração de uma “embalagem bonitinha” para, assim, bem vender a “mercadoria Barack Obama”, e que, infelizmente, o campo midiático prefere abordar.

Faz algum tempo, numa entrevista para este portal, e quando a campanha ainda estava na fase “das primárias”, disse que a eleição deste ano, nos EUA, revelava um “espírito político” novo: três “sujeitos” – o idoso (John McCan), a mulher (Hillary Clinton) e o negro (Barack Obama) – complexos disputavam o cargo mais alto da nação norte-americana. Anteriormente apenas os dois primeiros eram protagonistas, e mesmo assim, o “sujeito negro” é (também) ator político novérrimo na historicidade política do país. O “sujeito mulher” aparece, este ano, pela primeiríssima vez. E é sobre este “sujeito mulher” que desejo fazer uma brevíssima análise.

Desde que a campanha “das primárias” foi inciada, a mídia dos Estados Unidos, (mais conservadora, preconceituosa e racista do mundo) tentou “enquadrar” Hillary Clinton como uma candidata nascida da costela de Bill Clinton (marido e ex-presidente dos EUA). Esse enunciado foi aculturado2, de certa maneira, pela mídia mundial. E esse enunciado discursivo, não tenho medo de inferir, fez um “estrago” terrível na candidatura da senadora nova-iorquina.

Quando historiadores forem fazer suas pesquisas (daqui há algum tempo) a respeito desse evento, com certeza, vão encontrar fundamentação científica para este meu pensamento empírico. E isso se dará quando a seguinte questão for problematizada: – “Por que motivo, ou seja, quais argumentações dos mecenas político-eleitorais – tão solícitos às candidaturas de McCan e Obama – para se negarem ao financiamento da campanha da senadora Hillary Clinton?”. A resposta, parece-me, óbvia e até mereceria uma atenção maior, mas há outros tópicos que pretendo e preciso inserir no artigo para uma justificação mais elaborada. Contudo, penso que esta é uma questão central e que não pode ser descartada pela pesquisa política.

Mas, retornemos ao epicentro deste artigo: o discurso da senadora Hillary Clinton realizado ontem. Penso que nele está concentrado toda visibilidade-invisibilidade do “sujeito mulher” nesta presente campanha presidencial dos Estados Unidos. E apenas ela, e tão-somente ela, é a principal responsável pela efetivação e pela inclusão da mulher na disputa eleitoral deste ano. Fato que se seguirá com maior assiduidade na política norte-americana; política de políticos de tez conservadora e preconceituosa, além de machista e generista-sexista. (Ah! Como gostaria de entrevistá-la!).

No discurso de ontem, uma das frases que mais me chamaram a atenção foi esta: “Pensem em seus filhos e netos no dia da eleição”; acrescentando em seguida que “Esta é nossa missão, democratas, vamos eleger Barack Obama presidente dos Estados Unidos.” Mas, o “sujeito mídia” de todo o mundo – conservador e preconceituoso, além de machista e reacionário – passou ao largo. Nenhuma análise foi feita sobre tais enunciações. Talvez(!) se isso tivesse sido dito por candidato do sexo masculino obtivesse maior repercussividade.

A fala de Hillary Clinton não deve ser tomada pura e tão-somente como frase de efeito eleitoral. Ela vai mais além. Transcende ao senso comum ou à simples “opinião” política de quem perdeu a disputa e agora se vê na obrigação de dar apoio à candidatura oficial, como pretendem fazer crer.

Nas palavras de Hillary Clinton sobressaem enunciados políticos que se encontram um pouco abaixo da epiderme política, por certo!, mas que tem significado fenomenal. Nelas estão inseridas o pensamento do “sujeito mulher” que diz, alto e bom som, que a sua participação jamais foi (ou fora) decorativa. Que a sua responsabilidade não acabou com a “derrota”, mas começa, exatamente, a partir da “derrota”. Depois dessa campanha “das primárias”, as campanhas eleitorais nos EUA jamais serão as mesmas. A influência de Hillary Clinton, que competentemente soube afastar-se da costela do adão, ressoará3 interna e externamente cada vez mais… cada dia mais… a cada disputa eleitoral. Este é um ano que ficará como divisor de águas. Podem crer!

Com isso o “sujeito mulher” estaria dizendo, segundo minha observação, estamos aqui fazendo e dando sentido a essa candidatura, que tem que ser uma candidatura com olhos de futuro, onde a oportunidade para todos deve ser imanente e relevante, e não somente para uns poucos privilegiados. Se apenas estes, os privilegiados, forem os beneficiários, então, não há “democracia”. E, aos meus olhos, está implícita uma mensagem, não somente para Obama, mas também para McCan e para o mundo. Não foi à toa que ela inferiu indagativamente: Vocês entram nesta campanha só por mim?”. (…) Vocês entram nesta campanha em nome das pessoas deste país que se sentem invisíveis?’‘.

É como se ela quisesse declarar, deblaterar mesmo, aos quatro cantos do mundo que não vale a pena entrar numa campanha política pelos lindos olhos ou pela beleza física ou pela cor da pele de um determinado candidato. Uma candidatura da importância como é a candidatura à presidência dos Estados Unidos requer muito mais. Sugere, no mínimo, que é preciso resgatar a invisibilidade das pessoas menos privilegiadas ou jamais visibilizadas pelos governos: a mulher, o negro, o idoso, os deficientes físicos, os desempregados… E quem melhor que o “sujeito mulher” para perceber esses fenômenos de indignidade humana?

Por fim, uma palavrinha sobre “pensem em seus filhos e netos no dia da eleição”.

O que está implícito, de fato, nesta frase?

Ouso responder a esta questão que eu mesmo formulei. Aos meus olhos ela quer dizer que o futuro não depende de uma eleição… não depende de uma geração… não depende de uma nação… não depende de ser homem… não depende de ser mulher…

Depende sim, da consciência plural… da consciência diversa… da consciência do diferente… da consciência do não-igual… da consciência da alteridade… da consciência ecológica… da consciência da não-dominação… da consciência do não-colonialismo… da consciência de não fazer as guerras… da consciência ecológica… Enfim!

E quem melhor que o “sujeito mulher” para perceber esses fenômenos de consciência-inconsciência… de visibilidade-invisibilidade?

*Artigo exclusivo para o Portal Mhario Lincoln do Brasil – http://www.mhariolincoln.jor.br

1João Batista do Lago, 58, maranhense de Itapecurumirim, é Poeta, escritor, teatrólogo, jornalista e pesquisador – Site: http://joaopoetadobrasil.wordpress.com – E-mail: joaobatistalagoster@gmail.com

2O conceito de aculturação tem sido alvo de diferentes – às vezes divergentes – interpretações de antropólogos e sociólogos, não quanto a seu aspecto mais lato – o processo de transformações culturais que se desenvolve em um ou mais grupo, resultante de contato com a cultura de outro(s) – mas quanto a seus mecanismos, sua dinâmica, sua intencionalidade, seu contexto ideológico etc. Entre as modalidades-padrão do processo de aculturação, têm sido citadas: adaptação (introdução na própria cultura elementos percebidos na de outrem, nem sempre com o mesmo significado), corte (introdução de elementos culturais alheios que convivem paralelamente com os próprios, mesmo que conflitantes), oposição (resistência ideológica a elementos estranhos, perturbando a evolução natural e a autotransformação de uma cultura ao longo do tempo e de novas experiências), fuga (auto-isolamento, como defesa de valores culturais exatamente pelo temor da aculturação), destruição (extermínio de culturas estranhas [e mesmo de seus portadores]).

3Esse fenômeno poderá ocorrer ocorrer no Brasil. Não sei! Quem viver verá.

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