O terceiro Sujeito: O Idoso – o mais complicado e controverso

 

O terceiro Sujeito: O Idoso – o mais complicado e controverso

 

© DE João Batista do Lago

 

Com este texto concluo esta trilogia de artigos, escritos com exclusividade para o Portal Mhario Lincoln do Brasil, nos quais envidei esforços no sentido de explicar e analisar, sob “uma” abordagem fenomênico-sociológica, as candidaturas postuladas pelos senadores Barack Obama, John McCain e Hillary Clinton. Para além deste conjunto intenciono escrever algo parecido a uma analítica conclusiva, mas sem ter a arrogância de tê-la como verdade única e absoluta – mesmo espírito que norteia as três dissertações.

Ao longo desta análise da política norte-americana, seja nos dois textos anteriores, assim como neste artigo, utilizo-me de um vocábulo – o Sujeito – de forma extensa, mas proposital; exatamente para provocar nos leitores uma compreendidade acima da opinião de senso comum (que nos “cria” reféns de analíticas preconceituosas ou preconcebidas) que, em geral, se nos é imposta pelo campo midiático, que, por sua vez, com tais enunciações comunicativas quer-si tornar “um sujeito” prevalecente sobre todos os demais, mediando sua verbalidade como se verdade óbvia ou verdade absoluta fora.

Apenas para explicar rapidamente como entendo esta “coisa” – o Sujeito – infiro superficialmente que ele, o “sujeito”, se destaca do indivíduo ou da pessoa física. Transcende à condição de corporeidade fisiológica e se manifesta semântico-fenomênicamente nos processos de atividades como “sujeito-tema”. Noutras palavras: não basta ser homem ou ser mulher para se tornar um “sujeito político” ou, simplesmente “sujeito”. Para que isto ocorra é indispensável que em-si opere o fenômeno do ser-função, isto é, o sujeito político exerce uma ou várias funções no processo de suas atividades de práxis. Funções estas que irão resultar em projetos de mundo futuro. Funções que levam esse determinado sujeito a fazer e dá sentido aos atos e fatos do objeto-objetivado.

Este é, portanto, o último artigo desta série que serve para analisar os três principais atores políticos, nesta eleição presidencial norte-americana, e que, aqui, resolvi denominá-los de “sujeitos políticos”. Segundo minha concepção são três os “sujeitos”: a) o sujeito mulher; b) o sujeito negro; c) o sujeito idoso. Os dois primeiros já foram analisados. Hoje falarei sobre o terceiro: o sujeito idoso.

O candidato John McCain é, por mim, aqui e agora, considerado o sujeito-idoso que carrega consigo o maior volume de complexidade nesta campanha eleitoral estadunidense. Contudo vale inserir, antes de tudo, breve explicação: o termo “idoso” não remete à conceitualidade pura e simplesmente de indivíduo ou pessoa velha, per se, mas a uma concepção temporal e espacial, onde “velho” ou “idoso” significa comportamento-prolixo entre sujeito-objeto, ou seja, onde não se pode definir com clareza atividade lógico-simétrica.

Entretanto, aos meus olhos, a participação de McCain tem importância fundamental e igual, tanto quanto às candidaturas de Obama e de Hillary. Assim como estes, McCain, introduz, com sua candidatura, o “sujeito idoso” como “sujeito político” no “templo” da política norte-americana. Você, caro leitor, pode até perguntar: – “Mas, porventura, já não existiram outros candidatos idosos?”. Evidentemente que sim! Mas, diferentemente do caso presente que, pela primeiríssima vez, chega numa condição de “sujeito político” de fato, e não meramente como herói ou mito.

A sua [McCain] participação neste processo eleitoral infere, entre outras coisas, que o cidadão septuagenário não está fora do mercado político simplesmente por ser septuagenário. Ora, isto significa dizer que direitos civis e políticos das pessoas com mais de 70 anos estão efetivamente assegurados, agora de fato, posto que era apenas uma condição de direito. Penso que esse novo arcabouço resgata a auto-estima do cidadão norte-americano com idade equivalente à do candidato republicano. No futuro imediato após as eleições nos Estados Unidos poder-se-á observar se isso se deu efetivamente ou não. Mas, mesmo que o eleitorado desta faixa de idade não aumente, penso que o “recado” está dado: – “É preciso respeito, de fato e de direito, a todos os cidadãos – o sujeito – em pé de igualdade absoluta – seja ele mulher, negro ou idoso”. E dentre estes cidadãos-sujeito deve-se, com certeza, incluir o idoso já que, manifestamente, no mundo inteiro, há sido sistematicamente vilipendiado. Há sido tratado como se fosse uma sociedade diferente, ou seja, como se não mais tivesse condições mínimas para o exercício de funções e papéis de alto relevo na estrutura dos Estados.

Essa subjetividade implícita nessa campanha, evidentemente, não recebeu, não recebe e não receberá atenção do “sujeito midiático”. E há razões fundamentalistas para essa postura da mídia! A primeira delas é por incompetência. A segunda, por omissão. A terceira é ideologica. Não me referirei às duas razões primeiras. Centrarei algumas palavras na terceira hipótese: a Ideologia. E assim mesmo muito superficialmente!

Tanto na linguagem política prática, como na linguagem filosófica, sociológica e político-científica, não existe talvez nenhuma outra palavra que possa ser comparada à Ideologia pela freqüência com a qual é empregada e, sobretudo, pela gama de significados diferentes que lhe são atribuídos. No intricado e múltiplo uso do termo, pode-se delinear, entretanto, duas tendências gerais ou dois tipos gerais de significados que Norberto Bobbio se propôs a chamar de “significado fraco” e de “significado forte” da Ideologia. No seu significado fraco, Ideologia designa o genus, ou a species diversamente definida, dos sistemas de crenças políticas: um conjunto de idéias e de valores respeitantes à ordem pública e tendo como função orientar os comportamentos políticos coletivos. O significado forte tem origem no conceito de Ideologia de Marx, entendido como falsa consciência das relações de domínio entre as classes, e se diferencia claramente do primeiro porque mantém, no próprio centro, diversamente modificada, corrigida ou alterada pelos vários autores, a noção da falsidade: a Ideologia é uma crença falsa. No significado fraco, Ideologia é um conceito neutro, que prescinde do caráter eventual e mistificante das crenças políticas. No significado forte, Ideologia é um conceito negativo que denota precisamente o caráter mistificante de falsa consciência de uma crença política [Mario Stoppino].

Mesmo tendo consciência plena que as duas tendências são indispensáveis para a formação de uma teoria do conhecimento – sociológico e politico – ouso inferir, neste artigo, análise mínima sobre a segunda tendência: o significado forte. É a partir deste que temos a noção exata do fenômeno marxista da falsa consciência.

Se por um lado [McCain] o sujeito-idoso ao qual me refiro introduz novos valores de resgate sócio-político no campo da cidadania, por outro revela-se existencialmente “proprietário-espectro” de falsa consciência dada. Noutras palavras: o sujeito idoso que surge em McCain, como político-partidário, num alargamento dum olhar fenomenológico, surge na vazão de uma falsa proposta de mudança gerada a partir dum discurso ou duma discursividade que não apresenta mudanças quaisquer. O simples fato de afastar-se do Presidente Bush (estratégia de marketing político inteligente) não o faz portador de mudanças efetivas, ou seja, ele [McCain] não consegue fazer sentido ou dá sentido ao conceito de mudanças que são cobradas pela maioria dos eleitores estadunidenses. Ora, isso pressupõe uma falsa consciência do objeto político. Ora, isso traduz, de fato, uma falsa representação da realidade dada. Ora, isso significa que, se eleito, a Verdade que ele apresenta agora se consolidará, no futuro, como uma “não-verdade”.

Nem mesmo a escolha de sua vice – um sujeito mulher – consegue dissimular a falsa consciência implícita na candidatura republicana. Digo isso porque se olharmos o retrospecto de Palin verifica-se que, também ela, traz consigo todos atributos essenciais dum conservadorismo iconoclasta (entenda-se como destruidora de imagens de mudanças) profundamente arraigado em concepções e conceitos de afirmação de uma tipologia de tradicionalismo de tez conservadora, preconceituosa e racista. Sua visão [de Palin] separatista, por exemplo, é extremamente duvidosa, e diria mesmo, perigosa para o futuro da humanidade. Enfim, aos meus olhos (e isso não quer dizer que eu esteja com a verdade absoluta), o candidato republicano é um “sujeito político”, mas um sujeito político que traduz em si um “sujeito idoso” carregado de dubiedades. Isto, porém, não quer dizer que ele possa “não” ser eleito. E esta é uma questão que deve permear as analíticas que se fizerem de agora por diante.

Alea jacta est [A sorte está lançada]! E o único juízo dessa sorte é o eleitor norte-americano.

One Comment

  1. Posted terça-feira, 30, setembro 2008 - at 19:17 pm | Permalink

    Caro amigo, admiro a sua luta contra o preconceito. Haver um candidato não-branco à presidência dos EUA é um sinal de mudança positiva. Independentemente disso, cada cidadão deverá impor-se pelo que vale como gente, seja novo seja velho, embora a velhice traga a mais-valia da experiência/sabedoria ou a menos-valia da senilidade/esclerose. Os espartanos cultivavam o respeito pelos velhos…


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