Cadernos Políticos

O Poder nu*

A Transformação Socialista do Homem


Escrito: 1930
Primeira Edição: 1930: Socialisticheskaja peredelka cheloveka. VARNITSO, USSR .
Fonte da presente Tradução: Marxists Internet Archive, english version.
Tradução * de: Nilson Dória para o Marxists Internet Archive, Julho de 2004.
HTML por José Braz para o Marxists Internet Archive, Outubro de 2004


Mas, juntamente com o início da vida social e histórica humana e das mudanças fundamentais nas condições às quais ela teve que se adaptar, mudou também, muito radicalmente, o próprio caráter do curso subseqüente da evolução humana. Até onde se pode julgar, com base no material efetivo disponível que foi obtido principalmente comparando os tipos biológicos de povos primitivos às fases mais primitivas de seu desenvolvimento cultural com representantes das raças mais culturalmente avançadas, até onde esta questão pode ser resolvida através de teoria psicológica contemporânea, há razões fortes para supor que o tipo biológico humano mudou notavelmente pouco durante o curso do desenvolvimento histórico do homem. Isto não quer dizer, é claro, que a evolução biológica paralisou-se e que a espécie humana é uma quantidade estável, inalterável, constante, mas sim que as leis fundamentais e os fatores essenciais que dirigem o processo de evolução biológica retrocederam ao plano de fundo e, ou decaíram completamente, ou tornaram-se uma parte reduzida ou sub-dominante das novas e mais complexas leis que governam o desenvolvimento social humano

Realmente, a luta pela sobrevivência e a seleção natural, as duas forças motrizes da evolução biológica no mundo animal, perdem a sua importância decisiva assim que passamos a considerar o desenvolvimento histórico do homem. As novas leis que regulam o curso da história humana e que regem o processo de desenvolvimento material e mental da sociedade humana, agora tomam os seus lugares.

Como um indivíduo só existe como um ser social, como um membro de algum grupo social em cujo contexto ele segue a estrada do desenvolvimento histórico, a composição de sua personalidade e a estrutura de seu comportamento reveste-se de um caráter dependente da evolução social cujos aspectos principais são determinados pelo grupo. Já nas sociedades primitiva, que só há pouco estão dando os seus primeiros passos ao longo da estrada do desenvolvimento histórico, a completa constituição psicológica dos indivíduos pode ser vista como diretamente dependente do desenvolvimento de tecnologia, do grau de desenvolvimento das forças de produção e da estrutura daquele grupo social ao qual o indivíduo pertence. Pesquisas no campo da psicologia étnica forneceram provas incontroversas de que estes fatores, cuja interdependência intrínseca foi estabelecida pela teoria do materialismo histórico, são os componentes decisivos da psicologia integral do homem primitivo.

Em nenhum outro lugar, de acordo com Plekhanov 1, esta dependência da consciência relativa ao modo de vida manifesta-se de maneira mais óbvia e direta que na vida do homem primitivo. Isto ocorre por serem os fatores que realizam a mediação entre o progresso tecnológico e o psicológico ainda muito deficientes e primitivos, esta é a razão pela qual esta dependência pode ser observada quase que em seu estado bruto. Mas uma relação muito mais complicada entre estes dois fatores pode ser observada em uma sociedade altamente desenvolvida que adquiriu uma estrutura de classes complexa. Aqui a influência da base sobre a superestrutura psicológica do homem não se dá forma direta, mas mediada por um grande número de fatores materiais e espirituais muito complexos. Mas, até mesmo aqui, a lei fundamental do desenvolvimento histórico humano, que proclama serem os seres humanos criados pela sociedade na qual vivem e que ela representa o fator determinante na formação de suas personalidades, permanece em vigor.

Do mesmo modo que a vida de uma sociedade não representa um único e uniforme todo, e a sociedade ela mesma é subdividida em diferentes classes, assim também, não pode ser dito que a composição das personalidades humanas representa algo homogêneo e uniforme em um dado período histórico, e a psicologia tem que levar em conta o fato básico que a tese geral que foi formulada agora mesmo, só pode ter uma conclusão direta, confirmar o caráter de classe, natureza de classe e distinções de classe que são responsáveis pela formação dos tipos humanos. As várias contradições internas que são encontradas nos diferentes sistemas sociais encontram sua expressão tanto no tipo de personalidade quanto na estrutura da psicologia humana naquele período histórico.

Nas descrições clássicas do período inicial do capitalismo, Marx enfatiza freqüentemente o tema da corrupção da personalidade humana que é provocada pelo crescimento da sociedade capitalista industrial. Em um dos extremos da sociedade, a divisão entre o trabalho intelectual e o físico, a separação entre a cidade e o campo, a exploração cruel do trabalho da criança e da mulher, pobreza e a impossibilidade de um desenvolvimento livre e completo do pleno potencial humano, e no outro extremo, ócio e luxo; disso tudo resulta não só que o tipo humano originalmente único torna-se diferenciado e fragmentado em vários tipos nas diversas classes sociais que, por sua vez, permanecem em agudo contraste umas às outras, mas também na corrupção e distorção da personalidade humana e sua sujeição a um desenvolvimento inadequado, unilateral em todas estas diferentes variantes do tipo humano.

‘Juntamente com a divisão de trabalho’, diz Engels, ‘o próprio homem foi subdividido’2 de acordo com Ryazanov, ‘toda forma de produção material especifica alguma divisão social do trabalho, e que é responsável por sua divisão espiritual. A começar pela corrupção da sociedade primitiva, já podemos observar a seleção de várias funções espirituais e organizacionais em espécies e subespécies determinadas correspondentes ao esquema da divisão social de trabalho’3 . Mais adiante Engels diz:

“Já a primeira grande divisão do trabalho, a divisão entre a cidade e o campo, condenou a população rural a milênios de entorpecimento mental, e os moradores de cidade à escravização, cada um segundo seu trabalho particular. Destruiu a base para desenvolvimento espiritual do primeiro, e a do físico para o último. Se um camponês é o mestre de sua terra e o artesão de sua arte, então, em grau nada menor, a terra governa o camponês e a arte o artesão. A divisão do trabalho causou ao homem sua própria subdivisão. Todas as demais faculdades físicas e espirituais são sacrificadas a partir do momento que se desenvolve somente um tipo de atividade”

“Esta degeneração do homem avança à medida que a divisão do trabalho alcança seu nível mais alto na manufatura. A manufatura ‘quebra’ o ofício do artesão em operações fracionadas, atribui, na qualidade de vocação, cada uma delas a um trabalhador distinto e os acorrenta a uma operação fracionária específica, a uma ferramenta específica de trabalho para o resto da vida…”

“E não só os trabalhadores, mas também as classes que os exploram diretamente ou indiretamente, que são escravizadas pelos instrumentos de suas atividades, como resultado da divisão de trabalho: os burgueses mesquinhos, por seu capital e desejo por lucro; o advogado pelas idéias jurídicas ossificadas que o governam como uma força independente; ‘as classes educadas’ em geral, por suas limitações locais particulares e unilaterais, suas deficiências físicas e miopia espiritual. Estão todos mutilados pela educação que os treina para uma certa especialidade, pela escravização vitalícia a esta especialidade, até mesmo se esta especialidade é fazer absolutamente nada.” 4

Isto é o que Engels escreveu em ‘O Anti-Dühring’. Nós temos que proceder da suposição básica que produção intelectual é determinada pela forma de produção material.

“Assim, por exemplo, no capitalismo é encontrada uma forma diferente de produção espiritual daquela prevalecente durante a Idade Média. Cada forma historicamente definida de produção material tem sua forma correspondente de produção espiritual, e isto, por sua vez, significa que a psicologia humana, que é o instrumento direto desta produção intelectual, assume uma forma específica a cada fase determinada do desenvolvimento”.

Esta incapacitação dos seres humanos, este desenvolvimento unilateral e distorcido das suas várias capacidades, que Engels descreve, e que surge com a divisão entre cidade e campo, está crescendo a uma enorme velocidade devido à influência da divisão tecnológica de trabalho. Engels escreve:

“Todo conhecimento, perspicácia e vontade que o camponês e o artesão independentes desenvolvem, embora em uma escala pequena, como o selvagem que age como se toda a arte da guerra consistisse no exercício de sua astúcia pessoal, estas faculdades agora são requeridas apenas da fábrica como um todo. As potências intelectuais de produção as fazem desenvolver em um só sentido, porque as fazem extinguir em muitos outros. O que foi perdido pelos trabalhadores especializados [‘teilarbeiter’] está concentrado no capital que os emprega. Como resultado da divisão de trabalho no seio da manufatura, o trabalhador é levado a encarar as potências intelectuais do processo material de produção como propriedade alheia, e como um poder que o domina. Este processo de separação começa em co-operação simples na qual o capitalista representa para o trabalhador particular a unidade e a vontade do trabalho social [‘Arbeitskörpers ‘].Isto que começa na manufatura, que mutila o trabalhador transformando-o em um trabalhador especializado, é terminado pela indústria de larga escala que separa a ciência, como um potencial produtivo, do trabalho e a coloca a serviço do capital.”5

Como resultado do avanço do capitalismo, o desenvolvimento da produção material trouxe simultaneamente consigo a divisão progressiva do trabalho e o crescente desenvolvimento distorcido do potencial humano. Se ‘na manufatura e no trabalho artesanal o trabalhador faz uso de suas ferramentas, então na fábrica ele se torna o criado da máquina’. Marx diz que no primeiro caso ele inicia o movimento da ferramenta, mas no segundo ele é forçado a seguir seu movimento. Os trabalhadores se transformam em ‘extensões vivas das máquinas’, o que resulta na ‘tenebrosa monotonia do infinito tormento do trabalho’ que Marx [1890/1962, pág. 445] diz ser o elemento característico daquele período no desenvolvimento do capitalismo que ele está descrevendo. O trabalhador é preso a uma função específica, e de acordo com Marx [ibid, pág. 381], isto o transforma ‘de um trabalhador em uma anormalidade que artificialmente [‘treibhausmäsig ‘] é nutrida por apenas uma habilidade especial, suprimindo toda a riqueza restante de seus talentos e inclinações produtivas’.

Nos dias atuais, o trabalho da criança representa um exemplo particularmente horrorizante da deformação do desenvolvimento psicológico humano. Na busca por trabalho barato e devido à simplificação extrema das funções que os trabalhadores têm que levar a cabo, o recrutamento em larga escala de crianças tornou-se possível, o que resulta em um desenvolvimento retardado, ou um completamente unilateral e distorcido que acontece na idade mais impressionante, quando a personalidade da pessoa está sendo formada. A pesquisa clássica de Marx está cheia de exemplos de ‘esterilidade intelectual’, ‘degradação física e intelectual’, transformação ‘de seres humanos imaturos em máquinas para a produção de mais-valia’ [ibid., pp. 421-2], e ele apresenta um quadro vívido de todo o processo que resulta em uma situação na qual ‘o trabalhador existe em função do processo de produção, e não o processo de produção em função do trabalhador’[ibid., pág. 514].

Porém, todos estes fatores negativos não dão um quadro completo de como o processo de desenvolvimento humano é influenciado pelo crescimento acelerado da indústria. Todas estas influências adversas não são inerentes à indústria de larga escala como tal, mas à sua organização capitalista que está baseada na exploração de enormes massas da população e que resultou em uma situação na qual em vez de todo passo novo para a conquista da natureza pelos seres humanos, todo novo patamar de desenvolvimento da força produtiva da sociedade, não só não elevou a humanidade como um todo, e cada personalidade humana individual, para um nível mais alto, mas conduziu a uma degradação mais profunda da personalidade humana e de seu potencial de crescimento.

Enquanto observadores dos efeitos incapacitantes do processo de progresso da civilização sobre os seres humanos, filósofos como Rousseau e Tolstói não puderam ver nenhuma outra solução que um retorno à integralidade e pureza da natureza humana. De acordo com Tolstói, nosso ideal não está à nossa frente, mas atrás de nós. Neste sentido, do ponto de vista deste romantismo reacionário, os períodos primitivos de desenvolvimento da sociedade humana apresentam-se como aquele ideal que a humanidade deveria estar perseguindo. Realmente, uma análise mais profunda das tendências econômicas e históricas que regulam o desenvolvimento do capitalismo mostra que este processo de mutilação da natureza humana, acima discutida, é inerente não só ao crescimento da indústria de grande escala, mas à específica forma de organização da sociedade capitalista.

A mais fundamental e importante contradição em toda esta estrutura social consiste no fato que dentro dela, sob pressão inexorável, estão evoluindo forças  para sua destruição, e estão sendo criadas as precondições para sua substituição por uma nova ordem baseada na ausência da exploração do homem pelo homem. Mais de uma vez, Marx demonstra como o trabalho, ou a indústria de larga escala, em si mesmos, não levam necessariamente à mutilação da natureza humana, como um seguidor de Rousseau ou Tolstói assumiria, mas, pelo contrário, contêm dentro de si mesmos possibilidades infinitas para o desenvolvimento da personalidade humana.

Ele diz, ‘como pode ser averiguado a partir dos exemplos dados por Robert Owen, tem crescido a semente de um sistema educacional futuro que combinará o trabalho produtivo com a educação formal e física para todas as crianças acima de uma certa idade, não só como um método de aumento da produção, mas como o único método de produzir seres humanos bem equilibradamente educados’ [ibid., pp. 507-8]. Assim a participação das crianças nas fábricas, que sob o sistema capitalista, particularmente durante o período descrito de crescimento do capitalismo, é a fonte da degradação física e intelectual, contém em si mesma as sementes para um sistema educacional futuro e pode vir a constituir-se na forma mais elevada de criação de um tipo novo de ser humano. O crescimento da indústria de grande escala faz necessário, por si só, que se construa um novo tipo de trabalho humano e um novo tipo de ser humano que seja capaz de levar a cabo estas novas formas de trabalho. ‘A natureza da indústria de larga escala estipula um trabalho mutável; uma mudança ininterrupta de funções e uma completa mobilidade para o trabalhador’, diz Marx: ‘o indivíduo que foi se transformado em uma fração, o portador simples de uma função social fracionária, será substituído por um indivíduo completamente desenvolvido para quem as funções sociais diversas representam formas alternativas de suas atividades ‘ [ibid., pp. 511-12].

Assim não só se demonstra que a combinação do trabalho industrial com a educação provou ser uns meios de criar pessoas plenamente desenvolvidas, mas também que o tipo de pessoa que será exigida para trabalhar neste processo industrial altamente desenvolvido, diferirá substancialmente do tipo de pessoa era o produto do trabalho voltado para a produção durante o período inicial do desenvolvimento capitalista. Neste aspecto o fim do período capitalista apresenta uma antítese notável relativa a seu começo. Se no princípio o indivíduo foi transformado em uma fração, no executor de uma função fracionária, em uma extensão viva da máquina, então ao término, as próprias exigências da indústria requererão uma pessoa plenamente desenvolvida, flexível e que seja capaz de alterar as formas de trabalho, de organizar o processo de produção e de controlá-lo.

Não importa qual característica particular e definidora do tipo psicológico humano que tomemos, seja nos períodos iniciais ou recentes do desenvolvimento do capitalismo, em todos os casos nós encontraremos sempre um significado e um caráter duplos em cada característica crucial. A fonte da degradação da personalidade na forma capitalista de produção, também contém em si mesma o potencial para um crescimento infinito da personalidade.

Para dar um exemplo, concluiremos examinando situações de trabalho onde pessoas de ambos os sexos e de todas as idades têm que trabalhar juntas. ‘A composição do quadro geral de empregados por pessoas de ambos sexos e todas as idades…’, diz Marx, ‘deve, pelo contrário, sob circunstâncias apropriadas, se transformar em uma fonte de desenvolvimento humano’ [ibid., pág. 514].

Disto pode se tirar que o crescimento da indústria de grande escala contém dentro de si mesmo o potencial escondido para o desenvolvimento da personalidade humana e que somente a forma capitalista de organização do processo industrial é a responsável pelo fato de todas estas forças exercerem uma influência unilateral e incapacitante que retarda o desenvolvimento pessoal.

Em um de seus primeiros trabalhos, Marx escreve que se a psicologia desejar se tornar uma ciência realmente relevante, terá que aprender ler o livro da história da indústria material que encarna ‘os poderes essenciais de homem’, e que é uma encarnação concreta da psicologia humana6 .Da maneira como se dá, toda a tragédia interior do capitalismo consiste no fato que na ocasião em que o estudo objetivo da psicologia do homem, que continha dentro de si potencial infinito de domínio sobre a natureza e sobre o desenvolvimento de sua própria natureza, crescia a passo acelerado, sua vida espiritual real estava degradando e passando pelo processo que Engels descreveu tão vividamente como a mutilação do homem.

Mas a essência de toda esta discussão consiste no fato que esta dupla influência de fatores inerentes à indústria de grande escala sobre o desenvolvimento pessoal do homem, esta contradição interna do sistema capitalista, não pode ser solucionada sem a destruição do sistema capitalista de organização industrial. Neste sentido, a contradição parcial que nós já mencionamos, entre o poder crescente do homem e sua degradação que paralelamente aprofunda-se, entre seu crescente domínio sobre a natureza, e sua liberdade por um lado, e a sua escravidão e dependência crescentes das coisas produzidas por ele mesmo, no outro—nós desejamos reiterar que esta contradição representa só uma parte de uma contradição muito mais geral e totalizadora que subjaz ao sistema capitalista tomado como um todo. Esta contradição geral. entre o desenvolvimento das forças de produção e a ordem social que correspondente a este nível de desenvolvimento das forças de produção, é resolvida pela revolução socialista e uma transição para uma nova ordem social e uma nova forma de organização das relações sociais.

Paralelamente a esse processo, uma mudança na personalidade humana e uma alteração do próprio homem deve inevitavelmente acontecer. Esta alteração tem três raízes básicas. A primeira delas consiste no fato mesmo da destruição das formas capitalistas de organização e produção e das formas de vida social e espiritual que a partir daí irão surgir. Junto com o desfacelamento da ordem capitalista, todas as forças que oprimem o homem e que o mantêm escravizado pelas máquinas e que interferem com o seu livre desenvolvimento também desaparecerão e serão destruídas. Junto com a liberação dos muitos milhões de seres humanos da opressão, virá a libertação da personalidade humana das correntes que restringem seu desenvolvimento. Esta é a primeira fonte—a liberação de homem.

A segunda fonte de qual emerge a alteração de homem reside no fato de que ao mesmo tempo em que as velhas correntes desaparecem, o enorme potencial positivo presente na indústria de grande escala, o já crescente poder dos homens sobre a natureza, será liberado e tornado operativo. Todas as características discutidas acima, das quais o exemplo mais notório é a forma completamente nova de criar um futuro baseado na combinação de trabalho físico e intelectual, perderão seu caráter dual e mudarão o curso de sua influência de um modo fundamental. Considerando que anteriormente suas ações foram dirigidas contra as pessoas, agora elas começam a trabalhar por causa delas. De seu papel de obstáculos desempenhado outrora, elas se transformam em forças poderosas de promoção do desenvolvimento da personalidade humana.

Finalmente, a terceira fonte que inicia a alteração de homem é mudança nas próprias relações sociais entre as pessoas. Se as relações entre pessoas sofrem uma mudança, então junto com elas as idéias, padrões de comportamento, exigências e gostos também mudarão. Como foi averiguado por pesquisa psicológica a personalidade humana é formada basicamente pela influência das relações sociais, i.e., o sistema do qual o indivíduo é apenas uma parte desde a infância mais tenra. ‘Minha relação para com meu ambiente’, diz Marx, ‘é minha consciência’7. Uma mudança fundamental do sistema global destas relações, das quais o homem é uma parte, também conduzirá inevitavelmente a uma mudança de consciência, uma mudança completa no comportamento do homem.

A educação deve desempenhar o papel central na transformação do homem, nesta estrada de formação social consciente de gerações novas, a educação deve ser a base para alteração do tipo humano histórico. As novas gerações e suas novas formas de educação representam a rota principal que a história seguirá para criar o novo tipo de homem. Neste sentido, o papel da educação social e politécnica é extraordinariamente importante. As idéias básicas que justificam a educação politécnica consistem em uma tentativa de superar a divisão entre trabalho físico e intelectual e reunir pensamento e trabalho que foram separados durante o processo de desenvolvimento capitalista.

De acordo com Marx, a educação politécnica proporciona a familiaridade com os princípios científicos gerais a todos os processos de produção e, ao mesmo tempo, ensina as crianças e adolescentes que habilidades práticas tornam possível para eles operarem as ferramentas básicas utilizadas em todas as indústrias. Krupskaja formula esta idéia da seguinte maneira:

“Uma escola politécnica pode ser distinguida de uma escola de comércio pelo fato de centrar-se na interpretação de processos de trabalho, no desenvolvimento da habilidade para unificar teoria e prática e na habilidade para entender a interdependência de certos fenômenos, enquanto em uma escola de comércio o centro de gravidade está em proporcionar para os alunos habilidades para o trabalho”. 8

Coletivismo, a unificação do trabalho físico e intelectual, uma mudança nas relações entre os sexos, a abolição da separação entre desenvolvimento físico e intelectual, estes são os aspectos fundamentais daquela alteração do homem que é o assunto de nossa discussão. E o resultado a ser alcançado, a glória e coroamento de todo esse processo de transformação da natureza humana, deveria ser o aparecimento da forma mais alta de liberdade humana que Marx descreve da seguinte maneira: ‘Somente em comunidade,[com os outros, cada] indivíduo [possui] os meios de cultivar seus talentos em todas as direções: só em comunidade, então, é possível a liberdade pessoal’9. Assim como a sociedade humana, a personalidade individual precisa dar este salto que a leva do reino da necessidade à esfera de liberdade, como foi descrito por Engels.

Sempre que a alteração do homem e a criação de um novo nível mais elevado de personalidade e conduta humanas são postas em discussão, é inevitável que sejam mencionadas idéias sobre um tipo novo de ser humano relacionado à teoria de Nietzsche sobre o super-homem. Partindo das perfeitamente verdadeiras suposições que a evolução não parou no homem e que o tipo moderno de ser humano representa nada além de uma ponte, uma forma transitória, que conduz a um tipo mais elevado, que a evolução não esgotou suas possibilidades quando criou o homem e que o tipo moderno de personalidade não é a realização mais alta e a última palavra no processo de desenvolvimento, Nietzsche concluiu que uma criatura nova pode surgir durante o processo de evolução, um super-homem que guardará a mesma relação com homem contemporâneo que o homem contemporâneo guarda com o macaco.

Porém, Nietzsche imaginou que o desenvolvimento deste tipo mais elevado de homem estava sujeito à mesma lei de evolução biológica, a luta pela vida e a seleção baseada na sobrevivência do mais apto, que prevalece no mundo animal. É por isto que o ideal de poder, a auto-afirmação da personalidade humana em toda sua abundância de poder e ambição instintivos, o individualismo áspero de homens e mulheres fora de série, de acordo com Nietzsche, formariam, a estrada para a criação de um super-homem.

Esta teoria é errônea, porque ignora o fato que as leis de evolução histórica do homem diferem fundamentalmente das leis da evolução biológica e que a diferença básica entre estes dois processos consiste no fato que um ser humano evolui e se desenvolve como um ser histórico, social. Só uma elevação de toda a humanidade a um nível mais alto de vida social, a liberação de toda a humanidade, pode conduzir à formação de um novo tipo de homem.

Porém, esta mudança do comportamento humano, esta mudança da personalidade humana, tem que conduzir, inevitavelmente, à evolução do homem para um tipo superior, para a alteração do tipo biológico humano. Tendo dominado os processos que determinam sua própria natureza, o homem que hoje está lutando contra velhice e doenças, ascenderá, indubitavelmente, a um nível mais elevado e transformará sua própria organização biológica. Mas esta é a fonte do maior paradoxo histórico do desenvolvimento contido nesta transformação biológica do tipo humano, que ela é alcançada principalmente por meio da ciência, da educação social e da racionalização dos modos de vida. A alteração biológica do homem não representa uma condição prévia para estes fatores, mas, ao invés disso, é um resultado da liberação social do homem.

Neste sentido Engels, que tinha examinado o processo de evolução do macaco ao homem, disse que trabalho que criou o homem10. Partindo daí, poder-se-ia dizer que novas formas de trabalho criarão o novo homem e que este homem novo se assemelhará ao tipo antigo de homem, ‘o antigo Adão’, apenas no nome, da mesma maneira como, de acordo com a grande declaração de Spinoza, um cão, o animal que late, se assemelha a Cão constelação celeste11.


Notas:

* Nota da tradução para língua portuguesa: cabem algumas observações acerca desta tradução:
a) Esta tradução é feita a partir da versão em língua inglesa do texto, portanto está mais sujeita a incorreções que o próprio texto que lhe serviu de base, dado que este já era por si só uma tradução.
b) O tradutor é brasileiro, e nessa qualidade efetuou toda a tradução tendo em vista as normas da língua portuguesa vigentes no Brasil, ainda assim, por não ser profissional do ramo das Letras, o tradutor pede desculpas por qualquer eventual erro.
c) Relativamente ao trabalho que serviu de modelo a esta tradução foi suprimida uma das notas, a nota número 5, por isso, a partir desta número as notas desta tradução não correspondem àquelas da numeração do texto original. O motivo da omissão foi não haver no corpo do texto indicação da nota, apenas constando a mesma do “rodapé”.
d) Ao contrário do tradutor para língua inglesa do texto original, o tradutor deste texto não buscou as traduções para a língua portuguesa dos textos originais citados. Nas notas que seguem (que também são traduções do texto base da tradução) são feitas referências às obras em língua inglesa, alemã ou russa dependendo do caso. É importante lembrar que as traduções dos textos originais aqui citados também são traduções livres do tradutor do presente texto. (retornar ao texto)

1. Provavelmente se refere a Plekhanov, G. V. 1922: Ocherki po istorii materializma. Moscou.(retornar ao texto)

2. Refere-se à pág. 272 de Engels, F. 1894/1978: Herrn Eugen Duhring’s Umwalzung der Wissenschaft [Anti-Duhring]. Dietz Verlag. (retornar ao texto)

3. É obscuro a que livro que Vygotsky está se referindo.(retornar ao texto)

4. Referência às pp. 271-2 de Engels 1894/1978. Ver também pp. 381 e 445 de Marx, K. 1890/1962: Das Kapital [O Capital] 4th ed.). Berlin: Dietz Verlag.(retornar ao texto)

5. Um erro curioso. O texto atribuído a Engels pode ser achado na p. 382 de Marx, K. 1890/1962: Das Kapital [O Capital] (4th edn). Berlin: Dietz Verlag.(retornar ao texto)

6. ‘Entendemos que a história da indústria e a atual existência objetiva da indústria são o livro aberto dos poderes essenciais do homem, percebemos a psicologia humana existente… uma psicologia para qual este livro, a parte de história que existe na forma mais perceptível e acessível, permanece um livro fechado, não pode se tornar uma ciência genuína, geral e real’. Ver pp. 302-03 of Marx-Engels Collected Works. Vol, 3: Economic and Philosophical Manuscripts. New York: International Publishers (1975). (retornar ao texto)

7. Referência à p. 30 of Marx, K. e Engels, F. 1846/1978: Die deutsche Ideologie [A Ideologia Alemã].Berlin: Dietz Verlag.(retornar ao texto)

8. A esposa de Lênin, N. K. Krupskaja, devotou muita atenção à questões educacionais. Em seu livro, Vospitanie molodezhi v Leninskom dukhe [Educação da Mocidade no Espírito de Lenin] ela discutiu experiências internacionais suas contemporâneas com escolas de trabalho (Arbeitsschule) à luz do ideal de Marx da educação politécnica. Ver Krupskaja, N. K. 1925/1989: Vospitanie molodezhi v Leninskom dukhe. Moscow: Pedagogika. Nós não pudemos estabelecer a fonte exata da presente citação.(retornar ao texto)

9. Ver p. 74 de Marx e Engels (1846/1978).(retornar ao texto)

10. Conferir pp. 444-55 de Engels, F. 1925/1978: Dialektik der Natur [A Dialética da Natureza]. Berlin: Dietz Verlag  (retornar ao texto)

11. Uma das citações favoritas de Vygotsky da Ética de Spinoza. Ver p. 61 of Spinoza, B. de 1677/1955: On the improvement of the understanding. The ethics. Correspondence. New York: Dover. ‘O antigo Adão’ pode ser uma referência implícita ao uso por Marx (1890/1962, p. 118) desta expressão.(retornar ao texto)


O Homem Não Vive Só de “Política”

Leão Trotsky

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Primeira Edição: …….. Fonte: ………… Tradução de: ……………..

Transcrição de: Alexandre Linares HTML de: Fernando A. S. Araújo, novembro 2005. Direitos de Reprodução:……… .


Esta idéia muito simples, é preciso que a compreendamos duma vez por todas e que nunca a esqueçamos na nossa propaganda oral ou escrita. Cada época tem a sua divisa. A história pré-revolucionária do nosso partido foi uma história de política revolucionária. A literatura de partido, as organizações de partido tudo se encontrava submetido à palavra de ordem de “política” no sentido mais estreito do termo. A revolução e a guerra civil aumentaram ainda mais a acuidade e a intensidade das tarefas dos interesses políticos. Durante esse período, o partido reuniu nas suas fileiras os elementos politicamente mais ativos da classe operária. No entanto, as conclusões políticas fundamentais desses anos são claras para a classe operária no seu conjunto. A repetição mecânica dessas conclusões nada lhe trará de novo; antes poderá desvanecer na sua consciência as lições do passado. Após a tomada do poder e a sua consolidação em seguida à guerra civil, as nossas tarefas fundamentais deslocaram-se para o domínio da construção econômica e cultural, tornaram-se mais complexas, parcelaram-se, adquiriram um caráter mais detalhado e, ao que parece, mais “prosaico”. Mas, ao mesmo tempo, as nossas lutas anteriores, com o seu cortejo de esforços e de sacrifícios, não encontrarão justificação senão na medida em quê consigamos enunciar corretamente e resolver as tarefas particulares, do dia a dia, aquelas que dependem do “militantismo cultural”. Com efeito, o que é que a classe operária exatamente ganhou, o que é que obteve no decurso das suas anteriores lutas?

  1. A ditadura do proletariado (por intermédio de um Estado operário e camponês dirigido pelo partido comunista).
  2. O Exército Vermelho, como apoio material da ditadura do proletariado.
  3. A nacionalização dos principais meios de produção sem a qual a ditadura do proletariado seria uma forma vazia, sem conteúdo.
  4. O monopólio do comércio externo, condição necessária da construção socialista perante um envolvimento capitalista.

Estes quatro elementos, cuja conquista é definitiva, constituem a armadura de aço de todo o nosso trabalho. Graças a isso, graças a essa armadura, cada um dos nossos êxitos no domínio econômico ou cultural – quando êxito real e não imaginário – tornou-se necessariamente um elemento constitutivo da construção socialista. Em que consiste hoje a nossa tarefa, que devemos nós aprender em primeiro lugar, em que sentido devemos tender? Precisamos aprender a bem trabalhar – com precisão, com limpeza, com economia. Temos necessidade de desenvolver a cultura do trabalho, a cultura da vida, a cultura do modo de vida. Após uma longa preparação e graças à alavanca da insurreição armada, derrubamos a supremacia dos exploradores. Mas não existe alavanca que possa de um só golpe elevar a cultura. Um lento processo de auto-educação da classe operária e paralelamente do campesinato, é aqui necessário. O camarada Lênin, num artigo sobre a cooperação, evoca essa mudança de direção da nossa atenção, dos nossos esforços, dos nossos métodos:

“… Somos forçados – diz ele – a reconhecer uma transformação radical do nosso ponto de vista sobre o socialismo. Essa transformação radical provém de que outrora nós colocávamos, e devíamos colocar, o centro de gravidade da nossa atividade no combate político, na revolução, na conquista do poder, etc.. Hoje, esse centro de gravidade variou a tal ponto que se deslocou para um trabalho organizacional, pacífico, cultural. Estaria pronto a dizer que, para nós, o centro de gravidade se deslocou para o militantismo cultural, se não existissem nem as relações internacionais nem a obrigação de defender a nossa situação à escala internacional. Mas se nos abstrairmos disso e nos limitarmos às relações econômicas internas, então hoje o centro de gravidade reduz-se efetivamente ao “militantismo cultural” (1).”

Assim, só o problema da nossa situação internacional nos desvia do militantismo cultural, e isso apenas em parte como em seguida veremos. O fator principal da nossa situação internacional é a defesa nacional, isto é, o Exército Vermelho. Ora, nesse domínio fundamental, as nossas tarefas relacionam-se ainda uma vez mais, em nove décimos, com o militantismo cultural; elevar o nível do exército, levar a bom termo a sua completa alfabetização, ensinar-lhe a utilizar os guias, os livros e as cartas, habituá-lo ao asseio, à exatidão, à pontualidade, à observação. Não há remédio milagroso que permita resolver imediatamente esses problemas. No fim da guerra civil, quando abordávamos uma nova fase da nossa atividade, a tentativa de criar uma “doutrina militar proletária” foi a expressão mais clara e a mais gritante da incompreensão das tarefas da nova época. Os orgulhosos projetos que visam criar uma “cultura proletária” em laboratório, procedem da mesma incompreensão. Nesta busca da pedra filosofal, o nosso desespero perante o nosso atraso une-se a uma crença no milagre, que é ela própria um sinal desse atraso. Mas não temos nenhuma razão de desesperar e é mais do que tempo de nos libertarmos dessa crença nos milagres, dessas práticas pueris de curandeiros, do gênero “cultura proletária” ou doutrina militar proletária. Para robustecer a ditadura do proletariado é necessário desenvolver um militantismo cultural quotidiano, o único a garantir um conteúdo socialista para as conquistas fundamentais da revolução. Quem não tenha compreendido isso, representa um papel reacionário na evolução do pensamento e do trabalho do partido. Quando o camarada Lênin afirma que as nossas tarefas de hoje não são tanto políticas como culturais, é necessário entendermo-nos sobre a terminologia a fim de não interpretar erradamente o seu pensamento. Num certo sentido, a política domina tudo. O conselho do camarada Lênin de transferir a nossa atenção do domínio político para o domínio cultural, é um conselho político. Quando um partido operário, em tal ou tal país, decide que é necessário num dado momento colocarem em primeiro plano as exigências econômicas e não as políticas, essa decisão tem um caráter “político”. É perfeitamente evidente que a palavra “política”, é utilizada aqui em dois sentidos diferentes: em primeiro lugar num sentido largo, materialista-dialético, englobando o conjunto das idéias diretivas, dos métodos e dos sistemas que orientam a atividade da coletividade em todos os domínios da vida social; em segundo lugar, num sentido estreito, especializado, caracterizando uma certa parte da atividade social, intimamente ligada à luta pelo poder e oposta ao trabalho econômico, social, etc.. Quando o camarada Lênin escreve que a política é economia concentrada, encara a política no sentido largo, filosófico. Quando o camarada Lênin diz: “um pouco menos de política, um pouco mais de economia”, encara a política no sentido estreito e especializado do termo. As duas acepções são igualmente válidas visto que legitimadas pelo uso. Importa apenas compreender bem do que se fala em cada um dos casos. A organização comunista é um partido político no sentido amplo, histórico, ou, se prefere, filosófico do termo. Os outros partidos atuais são políticos unicamente no sentido em que fazem (pequena) política. Se o nosso partido transfere a sua ação para o domínio cultural, isso de modo nenhum significa que enfraqueça o seu papel político. Historicamente, o papel dirigente (isto é, político) do partido, manifesta-se precisamente nessa deslocação lógica da sua atenção para o domínio cultural. Só após longos anos de atividade socialista, conduzida com êxito no interior e garantida no exterior, é que o partido poderá libertar-se pouco a pouco da sua carapaça “partisan” (1*) para se confundir com a comunidade socialista. Mas isso está ainda tão longe que se torna inútil antecipar sobre o futuro… No imediato, o partido deve conservar totalmente as suas características fundamentais: coesão ideológica, centralização, disciplina, e, correlativamente, combatividade. Mas precisamente essas inestimáveis qualidades de “espírito de partido” comunista não podem manter-se e desenvolver-se se não se satisfazem as exigências e as necessidades econômicas e culturais de forma mais completa, mais hábil, mais exata e mais minuciosa. Em conformidade com essas tarefas, que devem desempenhar hoje um papel preponderante na nossa política, o partido reagrupa, distribui as suas forças e educa a jovem geração. Por outras palavras, a grande política exige que na base do trabalho de agitação, de propaganda, de repartição de forças, de instrução e de educação, sejam hoje colocadas tarefas e exigências econômicas e culturais e não exigências “políticas” no sentido estreito do termo.

* * *

A poderosa unidade social que representa o proletariado surge em toda a sua amplitude nas épocas de luta revolucionária intensa. Mas no interior dessa unidade, observamos ao mesmo tempo uma incrível diversidade e mesmo uma grande heterogeneidade. Do pastor obscuro e inculto ao maquinista altamente especializado escalona-se toda uma variedade de qualificações, de níveis culturais, de hábitos de vida. Cada camada social, cada oficina de empresa, cada grupo, é constituído por indivíduos de idade e caráter diferentes, de passado diversificado. Se não existisse essa diversidade, o trabalho do partido comunista no domínio da educação e da unificação do proletariado seria de todo simples. Mas, pelo contrário, o exemplo da Europa prova-nos quanto esse trabalho é na realidade difícil. Pode dizer-se que quanto mais a história de um país, e portanto a própria história da própria classe operária, é rica, mais reminiscências, tradições e hábitos nela se encontram; quanto mais os grupos sociais nela são antigos, mais difícil é realizar a unidade da classe operária. O nosso proletariado quase não tem história nem tradições. Isso facilitou sem dúvida a sua preparação para a Revolução de Outubro. Mas, em contrapartida, isso torna mais difícil a sua construção após Outubro. O nosso operário (com exceção da camada superior) ignora inclusivamente os hábitos culturais mais elementares (desconhece, por exemplo, o asseio e a exatidão, não sabe ler nem escrever, etc.). O operário europeu adquiriu pouco a pouco esses hábitos no quadro do regime burguês: é por isso – vê-se nas camadas superiores – que está tão fortemente ligado a esse regime, com a sua democracia, a sua liberdade de imprensa e outros bens do mesmo gênero. Entre nós, um regime burguês tardio quase nada deu ao operário; foi justamente por isso que, na Rússia, o proletariado pôde romper e derrubar mais facilmente a burguesia. Mas é também pela mesma razão que o nosso proletariado, na sua maioria, é obrigado a adquirir hoje, isto é, no quadro de um governo socialista operário, os mais simples hábitos culturais. A história nada dá gratuitamente: se faz um desconto numa coisa, sobre política, vai recuperá-lo por outro lado, sobre a cultura. Quanto mais fácil foi (relativamente, entenda-se) ao proletariado russo fazer a revolução, tanto mais lhe será difícil realizar a construção socialista. Mas, em compensação, a armadura da nossa nova sociedade, forjada pela revolução e caracterizada pelos quatro elementos fundamentais citados no princípio deste capítulo, imprime um caráter objetivamente socialista a todos os esforços conscientes e nacionais no domínio da economia e da cultura. O operário, em regime burguês, sem o querer e sem mesmo o saber, enriquece a burguesia e enriquece-a tanto mais quanto melhor trabalha. No Estado soviético, o operário consciencioso, mesmo sem nisso pensar nem com tal se preocupar (se é sem-partido e apolítico) realiza um trabalho socialista, aumenta os meios da classe operária. Está aí precisamente todo o sentido da Revolução de Outubro, que a N.E.P. em nada modificou. Existe um enorme número de operários sem partido, profundamente dedicados à produção, à técnica, à máquina. Deve falar-se com reserva do seu “apolitismo”, isto é, da sua ausência de interesse pela política. Nos momentos difíceis e importantes da revolução estiveram ao nosso lado. Na sua grande maioria, Outubro não os assustou, não desertaram nem traíram. Quando da guerra civil, numerosos dentre eles estiveram na frente e outros trabalharam para equipar o exército. Depois regressaram ao trabalho pacífico. Chamou-se-lhes apolíticos, e não sem fundamento, porque colocam o seu trabalho ou o seu interesse familiar mais alto do que o interesse político, pelo menos durante os períodos “calmos”. Cada um deles quer tornar-se um bom operário, aperfeiçoar-se, elevar-se a um nível superior, tanto para melhorar a situação da sua fábrica como devido a um amor próprio profissional legítimo. Cada um deles, como já dissemos, realiza um trabalho socialista mesmo que não tenha fixado isso como objetivo. Mas o que nos interessa a nós, partido comunista, é que esses operários-produtores tenham uma clara consciência da ligação existente entre a sua particular produção quotidiana e os fins da construção socialista no seu conjunto. Os interesses do socialismo estarão assim melhor garantidos e esses produtores individuais retirarão disso uma satisfação moral bastante maior. Mas como chegar a isso? É difícil sustentar com este tipo de operários questões de política pura. Já escutou todos os discursos. Não se sente atraído pelo partido. O seu pensamento só desperta quando está junto da sua máquina e, de momento, aquilo que não o satisfaz é a ordem que existe na oficina, na fábrica, no trust. Esses operários procuram ir tão longe quanto possível na sua reflexão; são freqüentemente reservados; vê-se sair das suas fileiras os inventores autodidatas. Não é de política que se lhes deve falar, não é pelo menos isso que os apaixonará ao primeiro contato, más, em compensação, pode e deve falar-se-lhe de produção e de técnica. Um dos participantes na reunião dos agitadores moscovitas, o camarada Koltsov (do bairro de Krasnáia Presnia) sublinhou a enorme falta de manuais, de livros de estudo, de obras sobre especialidades técnicas ou outras profissões particulares. Os velhos livros estão esgotados; aliás, alguns dentre eles envelheceram no plano técnico, enquanto que no plano político estão geralmente impregnados dum servil espírito capitalista. Quanto aos novos manuais, existe um ou dois no máximo; é difícil encontrá-los porque foram editados em momentos diferentes por empresas ou serviços diversos, fora de todo o plano geral. Não são sempre tecnicamente válidos: são com freqüência demasiado teóricos e acadêmicos; enquanto que, politicamente, estão em geral não referenciados, não sendo no fundo mais do que a tradução de obras estrangeiras. Temos necessidade de uma série de novos manuais de algibeira: para o serralheiro soviético, para o torneiro soviético, para o eletricista soviético, etc.. Estes manuais devem adaptar-se à nossa técnica e à nossa economia atuais, devem ter em conta a nossa pobreza assim como as nossas imensas possibilidades, devem visar a desenvolver na nossa indústria métodos e hábitos novos muito mais racionais. Devem ainda, numa medida mais ou menos larga, evidenciar as perspectivas socialistas do ponto de vista das necessidades e dos interesses da própria técnica (é aqui que se localizam os problemas de normalização, de eletrificação, de economia planificada). Em tais obras, as idéias e as conclusões socialistas devem integrar-se na teoria prática de tal ou tal setor de atividade. De modo nenhum devem ter caráter de agitação supérflua e inoportuna. É enorme a procura para essas edições, devido à carência de operários qualificados, e ao desejo, por parte dos próprios operários, de elevar a sua qualificação. Essa procura acentua-se pela baixa de produtividade registrada no decurso da guerra civil e imperialista. Temos aqui uma tarefa extremamente importante e útil a realizar. Não se pode certamente ignorar quanto é difícil redigir esses manuais. Os operários, mesmo os altamente qualificados, não sabem escrever livros. Os escritores especializados que abordam certos problemas ignoram com freqüência os seus aspectos práticos. Finalmente, entre estes, poucos há que possuam um pensamento socialista. No entanto, este problema só pode encontrar uma solução combinada e não “simples”, isto é, rotineira. Para escrever um manual, é preciso reunir um grupo de três pessoas (troika) formado por um escritor especialista, tecnicamente informado, que conheça – ou que seja capaz de conhecer – o estado do ramo correspondente da nossa produção, por um operário altamente especializado nesse domínio, de espírito inventivo, e por um escritor marxista, com formação política e com alguns conhecimentos no campo da técnica e no da produção. Quer se utilize esta solução ou outras análogas, permanece a necessidade de pôr em marcha uma biblioteca exemplar de obras técnicas destinadas às oficinas, convenientemente encadernadas, de formato prático e pouco dispendiosas. Semelhante biblioteca desempenharia um duplo papel: favoreceria a elevação da qualificação do trabalho e por conseqüência o êxito da construção socialista; ajudaria, ao mesmo tempo, a reunir um grupo de operários-produtores extremamente válidos para a economia soviética no seu conjunto e, portanto, para o partido comunista. Sem dúvida que não se pode ter por limite único uma série de manuais de estudo. Se nos detivemos de forma tão detalhada sobre esse particular problema foi porque ele nos oferece, ao que parece, um exemplo bastante evidente da nova abordagem ditada pelos problemas do período atual. A luta pela conquista ideológica dos proletários “apolíticos” pode e deve ser conduzida por meios diversificados. É preciso editar semanários ou mensários científicos e técnicos especializados por sector de produção; é preciso criar sociedades científicas e técnicas destinadas a esses operários. É com vista a eles que, numa boa metade, deve orientar-se a nossa imprensa profissional se de fato não quer ser uma imprensa destinada unicamente ao pessoal dos sindicatos. Mas o argumento político mais convincente para os operários desse tipo consistirá em cada um dos nossos êxitos práticos no domínio industrial, em cada organização real do trabalho na fábrica ou na oficina, em cada esforço ponderado do partido nessa direção. Pode formular-se da maneira seguinte o ponto de vista político do operário-produtor que presentemente nos interessa e que raramente exprime as suas idéias: “quanto à revolução e ao derrube da burguesia, nada há a opor, houve razão em fazê-lo. Não temos necessidade da burguesia. Não temos também necessidade dos representantes mencheviques ou outros. No que respeita à “liberdade de imprensa?”- isso não é de tanta importância e não é esse o fundo do problema. Mas como ides vós resolver o problema da economia? Vós, comunistas, haveis tomado a direção dos negócios. Os vossos fins e os vossos planos são válidos, sabemo-lo, é inútil repeti-lo, houvemo-los, estamos de acordo, damo-vos o nosso apoio, mas, vejamos, como ides resolver praticamente esses problemas? Até ao presente, não vale a pena escondê-lo, aconteceu-vos com freqüência pôr o dedo onde não era devido. Sabemos que não se pode agir bem à primeira, que é preciso aprender, que os erros são inevitáveis. Sempre assim sucede. E visto que suportamos os crimes da burguesia, suportaremos tanto mais os erros da revolução. Mas isso não durará eternamente. Entre vós, comunistas, existe gente diferente entre si, como aliás também entre nós sucede, pobres pecadores: certos há que estudam realmente, fazem conscienciosamente o seu trabalho, diligenciam chegar a um resultado econômico prático, enquanto que outros se limitam à pantominice. E os pantomineiros são muito prejudiciais, porque o trabalho se lhes escapa por entre os dedos …”. Este tipo de operário, eis o que ele é: torneiro, serralheiro ou fundidor zeloso, hábil e atento ao seu trabalho; não é entusiasta, é antes politicamente passivo, mas reflete, tem espírito crítico; é por vezes um pouco cético, mas mantém-se sempre fiel à sua classe; é um proletário de valor. É em direção a este tipo de operários que o partido deve atualmente dirigir os seus esforços. O nosso grau de implantação nessa camada social – na economia, na produção, na técnica – será o índice mais seguro dos nossos êxitos em matéria de militantismo cultural, encarado no seu sentido mais amplo, no sentido leninista do termo. Dirigir os nossos esforços para o operário consciencioso, de modo nenhum contradiz, claro está, a tarefa primordial do partido que consiste em enquadrar a jovem geração do proletariado, porque esta jovem geração se desenvolve em condições precisas; forma-se, fortalece-se e endurece-se resolvendo determinados problemas. A jovem geração deve, antes de mais, ser uma geração de operários especializados, altamente qualificados, amantes do seu trabalho. Deve adquirir consciência de que a sua produção serve ao mesmo tempo o socialismo. A atenção dispensada à aprendizagem, o desejo de adquirir uma alta qualificação, aumentará, aos olhos da juventude, a autoridade dos “velhos” operários, que, como já se disse, permanecem na maioria fora do partido. Ao mesmo tempo que dirigimos os nossos esforços para o operário consciencioso e hábil, devemos também aplicar-nos em educar a juventude proletária. Sem isso, seria impossível seguir em frente, rumo ao socialismo.


Notas:

(1) É útil lembrar aqui a definição do “militantismo cultural” que dou nos meus “Pensamentos sobre o Partido”: “Ao nível da sua realização política, a revolução parece ter-se “dispersado”#8221 em tarefas particulares: é preciso reparar as pontes, ensinar a ler e a escrever, baixar o preço de custo da fabricação das botas nas fábricas soviéticas, lutar contra a imundície, prender os escroques, levar a eletricidade aos campos, etc. Alguns grosseiros intelectuais de espírito invertido (é decerto a razão pela qual se consideram poetas e filósofos), falaram já da revolução com grandiosa condescendência. Aprende-se, dizem eles, a vender (como é patusco) e a coser os botões (deixai-nos rir). Mas deixemos esses tagarelas palrar no vazio. Realizar um trabalho puramente prático e quotidiano no domínio da economia e da cultura soviéticas – mesmo no do comércio de retalho – de modo nenhum significa ocupar-se de “coisas mínimas” e não implica necessariamente mentalidade mesquinha. Coisas mínimas sem grandes coisas é o que mais abunda na vida humana. Mas em história não se fazem nunca grandes coisas sem pequenas coisas. Mais exatamente: as pequenas coisas, numa grande época, quando integradas numa grande obra, deixam de ser “pequenas coisas”.

Entre nós, trata-se da construção da classe operária, que, pela primeira vez, constrói para si e segundo o seu próprio plano. Esse plano histórico, ainda extremamente imperfeito e confuso, deve englobar no seu conjunto criativo único todos os elementos, mesmo os mais insignificantes, da atividade humana.

Todas as tarefas menores e isoladas – até ao comércio soviético de retalho – são parte integrante da classe operária dominante que procura ultrapassar a sua fraqueza econômica e cultural.

A construção socialista é uma construção planificada de grande envergadura. Através do fluxo e refluxo, dos erros e das viragens, dos meandros da N.E.P., o partido persegue o seu plano, ensina a cada um a ligar a sua atividade particular à obra geral, que exige hoje que se cosam os botões com cuidado e que amanhã pedirá que se morra corajosamente sob a bandeira do comunismo.

Devemos exigir, e exigimos, da parte da nossa juventude, uma especialização superior e aprofundada; deverá pois se libertar do principal defeito da nossa geração, que blasona de tudo conhecer e de tudo saber fazer; mas tratar-se-á de uma especialização ao serviço do plano geral, pensado e aceite por cada um em particular. (voltar ao texto)

(1*) Em russo: “partijnost”. (voltar ao texto)

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Carta a Roberto Sisson(1*)

Luiz Carlos Prestes

Setembro de 1935


Primeira Edição: …….. Fonte: Problemas Atuais da Democracia, Editorial Vitória, 1947. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, maio 2006. Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


Prezado companheiro Sisson:Tenho acompanhado com o mais vivo interesse, a sua intensa atividade na direção da ANL, à qual v. tem dado o melhor da sua energia e inteligência. Tanto na época anterior ao fechamento pelo governo das sedes da ANL, como depois da passagem do nosso movimento para a ilegalidade, a sua atividade, a sua coragem, o seu espírito de iniciativa e a sua inteligência têm estado por completo ao serviço da grande causa da libertação nacional do nosso país. Mas nestes poucos meses de existência da nossa grande organização nacional-libertadora o povo de todo o Brasil teve muitas ocasiões para sentir até onde vai o valor e a coragem de seus chefes. A sua atitude em Petrópolis, tomando a frente das massas e levando-as audaciosa e valentemente à luta contra os assassinos policiais e integralistas é digna dos verdadeiros continuadores da bravura de Siqueira Campos. O seu trabalho posterior, dirigindo a caravana libertadora ao Norte do país, foi outro marco vitorioso na sua carreira de libertador. V. soube explicar aos nossos compatriotas de todo o norte a causa da miséria em que vegetam. V., dirigindo um grupo de libertadores corajosos e inteligentes, soube ganhar definitivamente para as nossas fileiras todo o norte do Brasil. Sem sectarismo nem oportunismo, V. falou com todos que não estão vendidos ao imperialismo e teve a coragem de enfrentar o ódio dos grandes senhores feudais reacionários, dos seus governos de bandidos, e dos seus capangas integralistas. O povo do Norte e do Nordeste pôde sentir, através da atitude desassombrada e corajosa da caravana, que a ANL é um movimento nacional que luta realmente pela independência do Brasil e pelo bem estar de seu povo. Você tem, portanto, grandes qualidades para vencer, agora, na nova etapa que atravessa o nosso movimento libertador, todas as dificuldades, incômodos e dissabores resultantes do cargo trabalhoso e difícil de secretário geral da ANL. Eu, de minha parte, desejo o mais possível auxiliá-lo e, mesmo de longe, contribuir com um pouco da minha experiência no trato dos homens para facilitar o seu trabalho. A nossa tarefa central, na direção do grande movimento libertador, é saber reunir, congregar, unificar todos aqueles que no Brasil queiram dar um passo conosco na luta pela emancipação nacional do nosso povo. A nossa vitória depende essencialmente do nosso sucesso em tal tarefa. Tudo para unificar, nada que possa separar — tal é e precisa ser nosso lema. Única condição — tomar parte na luta pela emancipação nacional, não ser agente nem defensor do explorador estrangeiro. À frente da ANL precisamos ter isto muito claro e, sem nenhum oportunismo, sem concessões ao imperialismo ou ao fascismo, devemos ser inimigos irreconciliáveis do sectarismo, fazendo na prática diária os maiores esforços para ganhar para a ANL todos os que sejam capazes de nos acompanhar, nem que seja por alguns dias somente. Só não é anti-imperialista, hoje, no Brasil, a minoria dos argentários mais reacionários, estreitamente ligados aos capitalistas estrangeiros. Todo o restante, a quase totalidade da população do país é nacionalista. Muitos ainda pensam que com algumas reformas será possível controlar os dominadores; são os nacional-reformistas que não aprenderam nada com os movimentos anteriores, são os Juarez Távora, os Ary Parreira, etc. É necessário compreender que homens como tais ainda exercem influência sobre grandes camadas sociais e que precisam ser ganhos para o movimento libertador, apesar de todas as restrições que possam apresentar. Isto exige de nossa parte uma grande paciência, uma grande habilidade e o dispêndio de grandes energias. Mas precisa ser realizado. Além disto precisamos compreender que num movimento como o nosso, lidamos com homens, como eles são e não como nós desejaríamos que eles fossem. Teremos que trabalhar com oportunistas incuráveis, sempre dispostos a recuar, com sectários e esquerdistas incapazes de compreender o nosso trabalho ao lado de homens que não são «puros», que não são socialistas ou são adversários abertos dos comunistas, etc. A direção da ANL nos obriga a saber trabalhar com todos. Saber afastar tudo que possa separar, dividir, criar incompatibilidades, para fazer ressaltar tudo aquilo que possa unificar, que possa servir para reunir na luta pela emancipação nacional do Brasil. Apesar do muito que já foi feito no sentido de amplificar a nossa frente única anti-imperialista e antifascista, creio, no entanto, que ainda há muito a fazer. É para esse muito que ainda há a fazer que eu tomo a liberdade de lhe chamar a atenção, pedindo-lhe que não poupe sacrifícios para realizá-lo. Quero citar somente dois exemplos que me servirão para concretizar e melhor precisar minha opinião. É incontestável que, apesar de toda a podridão da política nacional, existem na Câmara Federal, e, talvez mesmo, no Senado, algumas figuras que não podemos acusar de agentes imperialistas. Mas nós, isto é, a direção da ANL, ainda não soube até agora ganhar tais elementos para a frente única anti-imperialista ou pelo menos para a frente única anti-integralista. Não se trata de uma adesão formal à ANL, trata-se de arrastar tais elementos praticamente a tomar posição ao nosso lado nas lutas contra o imperialismo e contra o fascismo. Há entre muitos companheiros da ANL grandes ilusões sobre a possibilidade de uma frente única com a oposição parlamentar. Tal coisa, presentemente, não é ainda possível e só poderá ser realidade depois que tal oposição for depurada, na prática, de alguns elementos reacionários que a dirigem. Mas, nas fileiras da oposição há muitos nacionalistas de verdade, muitos homens que marcharão conosco peio menos nas primeiras lutas contra o imperialismo. Por que não nos aproximamos de tais elementos? Por que não os procuramos e não os convidamos a participar em lutas concretas, em organizações como a FPL? Poderia citar muitos exemplos, mas creio que vocês aí poderão melhor julgar quais são os homens capazes de organizar um grupo anti-integralista e anti-imperialista no Parlamento, e que apóie as nossas iniciativas. Lembro, no entanto, o nome de Barros Cassal. Peço-lhe mesmo que o procure em meu nome, assim como ao Domingos Velasco, porque estou certo que ambos não terão dúvidas em vir formar junto com os libertadores, mesmo sem que para tanto rompam formalmente com os seus partidos. Por intermédio desses dois, será possível, estou certo, chegar a outros homens honestos capazes de também lutar pela emancipação nacional do Brasil. Na marinha também o nosso trabalho é relativamente insignificante. Não soubemos ainda ganhar para o movimento libertador a grande maioria dos oficiais de marinha, os quais apesar de todos os pesares, não podemos negar que sejam nacionalistas; o que há na marinha é um grande medo ao Comunismo e o receio que a ANL seja uma simples máscara do Partido Comunista. Precisamos mostrar praticamente a inverdade de tal afirmação, explicando, principalmente aos oficiais de marinha, o que será o governo popular nacional revolucionário. Por outro lado, precisamos nos aproximar dos homens de prestígio na marinha, daqueles que por uma ou outra causa exercem grande influência no meio naval. Um deles é incontestàvelmente o Ary Parreiras, o outro é o almirante Protógenes. Quanto ao primeiro, creio que por intermédio de outro companheiro iniciaremos relações. Falta, porém, chegar ao almirante Protógenes. Será que ele não compreende a minha posição, será ele capaz de lutar contra a ANL em defesa dos imperialistas e de seus serviçais nacionais? Ou será que ele ainda apóia esse governo, porque equivocadamente pensa assim defender os interesses nacionais? De qualquer maneira não haverá mal algum em que você o procure e trate de deslindar francamente com ele, utilizando mesmo esta carta, se julgar necessário, qual a sua posição frente ao nosso movimento libertador. Teria prazer em conhecer a opinião dele, as suas objeções, assim como qual a base mínima em que seria possível chegar a um acordo para a luta anti-imperialista e antifascista. Antes de terminar esta já longa carta desejo dizer-lhe ainda alguma coisa, sobre a necessidade das lutas parciais. É um fato, que se explica pela própria situação objetiva que atravessamos, que no Brasil todo mundo conspira. Conspiram os politiqueiros, conspiram os militares, conspiram os adversários do governo e mesmo os próprios membros do governo. São agrupações secretas desconhecidas do povo, quase sempre conhecidas da polícia, que naturalmente também conspira, e que, todas elas também tramam contra o governo, aspirando os postos de mando, mas com medo pânico do povo, da plebe ignara, como dizem eles, os conspiradores. Naturalmente nós da ANL também devemos e precisamos conspirar. Nós desejamos chegar ao poder, nós sabemos que só quando chegarmos ao poder, instalando o governo nacional revolucionário, o governo da ANL, teremos a democracia e a emancipação do nosso país. E ao poder, nós o sabemos, só poderemos chegar pela luta armada, pela luta insurrecional. A insurreição não é coisa espontânea e precisa ser cuidadosa e atentamente preparada; e preparada em segredo. Mas à diferença dos simples conspiradores, dos golpistas de todos os tempos, nós, os aliancistas, preparamos e marchamos para a insurreição, isto é a luta de massas, a grande luta em que deve e precisa participar todo o povo brasileiro. Nós não temos medo do povo, pelo contrário, sabemos que só com o povo podemos garantir o sucesso da nossa causa, a vitória da ANL, a instalação de um governo popular e nacional realmente democrático e anti-imperialista. Quanto aos golpes, já sabemos o que é que eles produzem e cometeríamos um crime se reduzíssemos a ANL a um centro de conspiradores a tramarem, longe do povo, com medo do povo, a luta pelo poder. Há uma diferença muito grande entre a insurreição e o golpe de Estado, tramado com os políticos de maior ou menor prestígio, com os oficiais e comandantes, quase sempre com dinheiro de um ou outro imperialista interessado no maior predomínio no seio do governo. Infelizmente a grande experiência revolucionária brasileira foi toda ela obtida através dos simples golpes. No preparo de golpes, na técnica da conspiração temos incontestàvelmente grandes especialistas. Há treze anos que se conspira no Brasil. Mas falta-nos a experiência das verdadeiras lutas insurrecionais, das grandes lutas de massa, das lutas populares conscientemente e cientificamente preparadas. No Brasil, quando uma organização como a ANL, declara francamente que luta pelo poder, o que interessa aos mais ativos é saber quando, em que dia, a que hora será dado o golpe. Isto tudo é muito bom. Tudo isso muito nos ajudará na preparação técnica da insurreição e é uma experiência de grande valor inexistente em muitos outros Países, que precisamos saber muito bem aproveitar e utilizar. Mas para nós o essencial, o indispensável é mobilizar e organizar grandes massas, prepará-las pacientemente, através de lutas parciais, para a grande luta final pelo poder. Sei que grande número de ótimos companheiros negam-se a tomar parte em tais lutas e reclamam corajosamente a luta armada pelo poder. Não adianta nada organizar camponeses e dirigí-los na luta local contra a barbaria feudal; não adianta nada lutar em cada localidade contra a carestia da vida, contra os impostos escorchantes; o povo não quer saber de lutas locais isoladas, nem de lutas parciais, etc. Assim falam grande número de companheiros aliancistas. O seu trabalho precisa ser muito grande para mostrar a tais companheiros como eles estão enganados, como eles ocultam toda a passividade, toda a incapa-cidade de organizar e dirigir lutas populares com as afirmações bombásticas de que estão prontos para a luta armada pelo poder. Tais lutas pelo poder só serão realmente possíveis, só serão realmente lutas de massas, lutas populares, se o povo, nelas participar, e tal participação não vai ser obtida por manifestos, nem por discursos, por mais inflamados que sejam. O povo irá às grandes lutas insurrecionais depois que em diversas lutas parciais tenha aprendido alguma coisa, tenha se convencido de que a polícia está ao lado da reação e do capitalista estrangeiro, tenha ganho confiança nas suas próprias forças pelas pequenas vitórias já alcançadas, tenha verificado na prática que os soldados são seus irmãos e ficaram a seu lado. Somente através das lutas parciais surgirão os grandes chefes populares, os homens que diretamente ligados ao povo, poderão transmitir nossas palavras de ordem e garantir, pelo prestígio com que contam, porque adquirido ao lado desse mesmo povo, nas lutas anteriores, que tais palavras serão obedecidas, serão realizadas. Através de tais lutas serão desmascarados todos os demagogos, os homens que no momento da insurreição poderiam desviar as massas do caminho da luta contra o imperialismo e o fascismo. Naturalmente é muito mais difícil e perigoso, exige um espírito de sacrifício muito maior ligar-se com o povo, organizá-lo, levá-lo a lutas efetivas por suas reivindicações, lutar com ele contra a polícia nas ruas, nas fazendas, do que conspirar e preparar planos mirabolantes de como tomar o poder através de um simples golpe de mão. Lutas, como a de Petrópolis, precisam ser preparadas e levadas a efeito em todo o Brasil. Depois de uns vinte Petrópolis a insurreição será inevitavelmente vitoriosa. Mas não basta criticar a posição falsa dos nossos companheiros golpistas. É indispensável auxiliá-los, para que aprendam a ligar-se com o povo, a organizá-lo, a dirigi-lo em suas lutas. Em cada localidade, em cada bairro, nas cidades, nas fazendas, nos navios, nas escolas, nas fábricas, nos quartéis, em toda a parte onde há uma coletividade popular, precisam os aliancistas chegar. Que deve lá fazer um aliancista consciente? Começar por declarar que é aliancista, que é adversário do governo, que quer fazer a revolução? — Não; evidentemente não. O aliancista deve tratar de sentir quais são as necessidades mais prementes de tal coletividade, quais são os interesses econômicos ou políticos os mais vivos, aqueles pelos quais será possível chegar à unificação de tal coletividade. Organizar com qualquer nome, ou sem nome algum, um Comitê de luta por tais interesses, dirigir tais lutas e principalmente não ter medo de que tais lutas se transformem, e cheguem mesmo, até à luta armada. Muitas vezes os nossos companheiros separam as lutas parciais das lutas armadas. Isto é falso, é completamente falso nas condições atuais do nosso país. Hoje, no Brasil, qualquer luta por mais pacífica que seja se transformará rapidamente em luta armada. Os dirigentes não têm direito de levar o povo a derrotas ou a massacres. Preparando qualquer luta, qualquer demonstração, qualquer passeata ou comício, devem imediatamente propor também a organização de grupos armados, grupos de auto-defesa, capazes de impedir o massacre, capazes de defender a vida dos oradores e dos chefes populares contra a sanha dos policiais e dos integralistas. A luta armada parcial é um grande instrumento para o esclarecimento da consciência popular. Não quer nada disso dizer que devemos nos tomar a iniciativa das lutas armadas, nem fazermos simples ataques armados de pequenos grupos. A nossa luta armada deve ser, antes de tudo, uma luta de massas e sempre uma resposta a ataques da polícia ou dos integralistas. Tais lutas, ao campo, poderão transformar-se em guerrilhas, em lutas permanentes de determinados grupos contra o feudalismo e a reação policial. Através das lutas parciais a ANL ganhará o seu verdadeiro caráter de massas e vencerá a ilegalidade, porque manifestará nas ruas a sua força. Esta é, portanto, a grande tarefa prática atual que precisa ser realizada pelos dirigentes da ANL.

Setembro de 1935


Notas:

(1*) Esta carta, datada de setembro de 1935, foi escrita antes da prisão do autor. Mas por seu espírito e seu conteúdo, muito se assemelha às que foram escritas depois, no cárcere, formando com elas um todo homogêneo e inseparável. Eis porque a incluímos aqui.

Lênin e o Movimento Feminino

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Clara Zetkin

1920


Primeira Edição: Clara Zetkin — in Notas de Meu Diário. Lênin, Tal Como Era. Páginas escritas depois da morte de Lênin. Fonte: O Socialismo e a Emancipação da Mulher, Editorial Vitória, 1956. Tradução: Editorial Vitória. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2007. Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


O camarada Lênin falou-me várias vezes sobre a questão feminina, à qual atribuía grande importância, uma vez que o movimento feminino era para ele parte integrante e, em certas ocasiões, parte decisiva do movimento de massas. É desnecessário dizer que ele considerava a plena igualdade social da mulher como um princípio indiscutível do comunismo.

Nossa primeira conversação longa sobre esse assunto teve lugar no outono de 1920, no seu grande gabinete, no Kremlin. Lênin estava sentado diante de sua mesa coberta de livros e de papéis, que indicavam seu tipo de ocupação e seu trabalho, mas sem exibir «a desordem dos gênios».

«Devemos criar necessariamente um poderoso movimento feminino internacional, fundado sobre uma base teórica clara e precisa» — começou ele, depois de haver-me saudado. «É claro que não pode haver uma boa prática sem teoria marxista. Nós, comunistas, devemos manter sobre tal questão nossos princípios, em toda sua pureza. Devemos distinguir-nos claramente de todos os outros partidos. Infelizmente, nosso II Congresso Internacional não teve tempo de tomar posição sobre esse ponto, embora a questão feminina tivesse sido ali levantada. A culpa é da comissão, que faz com que as coisas se arrastem. Ela deve elaborar uma resolução, teses, uma linha precisa. Mas até agora seus trabalhos não avançaram muito. Deveis ajudá-la.»

Já ouvira falar do que agora me dizia Lênin e expressei-lhe meu espanto. Era uma entusiasta de ,tudo quanto haviam feito as mulheres russas durante a revolução, de tudo quanto ainda faziam para defendê-la e para ajudá-la a desenvolver-se. Quanto à posição e à atividade das mulheres no Partido bolchevique, parecia-me que, por este lado, o Partido se mostrava realmente à altura de sua tarefa. Só o Partido bolchevique fornece quadros experimentados, preparados, para o movimento feminino comunista internacional e, ao mesmo tempo, serve de grande exemplo histórico.

«Exato, exatíssimo» — observou Lênin com um leve sorriso. «Em Petrogrado, em Moscou, nas cidades e nos centros industriais afastados, o comportamento das mulheres proletárias durante a revolução foi soberbo. Sem elas, muito provavelmente não teríamos vencido. Essa é minha opinião. De que coragem deram provas e que coragem mostram ainda hoje! imaginai todos os sofrimentos e as privações que suportaram. . . Mas mantêm-se firmes, não se curvam, porque defendem os sovietes, porque querem a liberdade e o comunismo.

Sim, as nossas operárias são magníficas, são verdadeiras lutadoras de classes. Merecem nossa admiração e nosso afeto.

Sim, possuíamos em nosso Partido companheiras seguras, capazes e incansáveis. Podemos confiar-lhes postos importantes nos sovietes, nos comitês executivos, nos Comissariados do Povo, na administração. Muitas delas trabalham dia e noite no Partido ou entre as massas proletárias e camponesas, ou no Exército Vermelho. Tudo isso é muitíssimo precioso para nós. E é importante para as mulheres do mundo inteiro, porque comprova a capacidade das mulheres e o elevado valor que tem seu trabalho, para a sociedade.

A primeira ditadura do proletariado abre verdadeiramente o caminho para a completa igualdade social da mulher. Elimina mais preconceitos que a montanha de escritos sobre, a igualdade feminina. E apesar de tudo isso, não possuímos ainda um movimento feminino comunista internacional. Mas devemos chegar a formá-lo, a todo custo. Devemos proceder imediatamente à sua organização. Sem esse movimento, o trabalho de nossa Internacional e das suas seções será incompleto e assim permanecerá.

Nosso trabalho revolucionário deve ser conduzido até o fim. Mas, dizei-me, como vai o trabalho comunista no exterior?»

Transmiti-lhe todas as informações que havia conseguido recolher; informações limitadas, em virtude dos elos débeis e irregulares que então existiam entre os partidos aderentes à Internacional Comunista. Lênin, um pouco inclinado para a frente, escutava atento, sem nenhum sinal de aborrecimento, de impaciência ou cansaço. Interessava-se vivamente mesmo por detalhes de importância secundária. Não conheço ninguém que saiba escutar melhor que ele, classificar tão rapidamente os fatos e coordená-los, como se podia ver pelas perguntas breves, mas sempre muito precisas, que me dirigia, de vez em quando, enquanto eu falava e pela maneira de voltar depois a algum detalhe de nossa conversa. Ele havia tomado algumas anotações breves. Naturalmente falei principalmente da situação na Alemanha. Disse-lhe que Rosa(1) considerava da maior importância conquistar para a luta revolucionária as massas femininas. Quando se formou o Partido Comunista, Rosa insistiu para que se publicasse um jornal dedicado ao movimento feminino. Quando Leo Jogiches examinava comigo o plano de trabalho do Partido, durante nosso último encontro, trinta e seis horas antes que o assassinassem, e me confiava algumas tarefas a realizar, “incluía também um plano de organização para as operárias. Essa questão já fora tratada na primeira conferência ilegal do Partido. Os propagandistas e os dirigentes mais preparados e experientes, que se haviam distinguido antes da guerra e durante a mesma, haviam permanecido quase todos nos partidos social-democratas das duas tendências, exercendo uma grande influência sobre as massas conscientes e ativas de operárias. Todavia, mesmo entre as mulheres, se havia formado um núcleo de camaradas enérgicas e cheias de abnegação, que participavam de todo o trabalho e da luta de nosso Partido. O Partido, por sua parte, estava desenvolvendo uma ação metódica entre as operárias. Tratava-se apenas do começo, mas de um bom começo.

«Não vai mal, de fato não vai mal» — disse Lênin. «A energia, o espírito de abnegação e o entusiasmo das mulheres comunistas, sua coragem e sua inteligência no período da ilegalidade ou de semi-legalidade, abrem uma bela perspectiva para o desenvolvimento desse trabalho. Apoderar-se das massas e organizar sua ação, eis os elementos preciosos para o desenvolvimento e o reforço da partido.

Mas, em que ponto estais, no que se refere à compreensão exata da base dessa ação? Como ensinais às camaradas ? Esse problema tem uma importância decisiva para o trabalho que se deve desenvolver entre as massas. Exerce uma grande influência, porque penetra justamente no coração da massa, porque a atrai para nós e a inflama. Não consigo recordar-me agora quem foi que disse: nada se faz de grande sem paixão. Ora, nós e os trabalhadores do mundo inteiro temos ainda, de fato, grandes coisas a realizar.

Assim, que anima vossas camaradas, as mulheres proletárias da Alemanha? Em que ponto está sua consciência de classe, de proletárias? Seus interesses, sua atividade se voltam para as reivindicações políticas do momento? Sobre que se concentra sua atenção?

A esse respeito, ouvi dizer coisas estranhas, às camaradas russas e alemãs. Devo contar-vos. Foi-me dito que uma comunista muito qualificada publica em Hamburgo um jornal para as prostitutas e tenta organizar essas mulheres para a luta revolucionária. Rosa agiu como comunista ao escrever um artigo no qual tomava a defesa das prostitutas, que são lançadas à prisão por infrações a qualquer regulamento da polícia referente à sua triste profissão. Duplamente vítimas da sociedade burguesa, as prostitutas merecem ser lamentadas. São vítimas, antes de tudo, do maldito sistema da propriedade, depois do maldito moralismo hipócrita. Somente os brutos ou os míopes podem esquecê-lo.

No entanto, não se trata de considerar as prostitutas como, por assim dizer, um setor especial da frente revolucionária e de publicar para elas um jornal especial.

Será que não existem, talvez, na Alemanha, operárias industriais para organizar, para educar com um jornal, para arrastar à luta? Eis aí um desvio mórbido. Isso me recorda muito a moda literária em que toda prostituta era apresentada como uma doce madona. É verdade que mesmo naquele caso a ‘raiz’ era sã: a compaixão social, a indignação contra a hipocrisia virtuosa da honrada burguesia. Mas essa raiz sã, sofrendo a contaminação burguesa, apodreceu. Em geral, a prostituição, mesmo no nosso país, colocará diante de nós numerosos problemas de difícil solução. Trata-se de reconduzir a prostituta ao trabalho produtivo, de indicar-lhe um lugar na economia social; o que, no estado atual de nossa economia e nas condições atuais, é uma coisa complicada e dificilmente realizável. Eis portanto um aspecto da questão feminina que, depois da conquista do poder pelo proletariado, se apresenta em toda a amplitude e exige solução. Na Rússia soviética, esse problema dará ainda pano para mangas. Mas voltemos ao vosso caso particular na Alemanha. O Partido não pode tolerar, em nenhum caso, semelhantes atos, não autorizados, por parte de seus membros. Isso confunde as coisas e desagrega nossas forças. Que fizestes para impedi-lo?»

Sem esperar minha resposta, Lênin continuou:

«A lista de vossos pecados, Clara, ainda não terminou. Ouvi dizer que, em vossas reuniões noturnas dedicadas à leitura e aos debates com as operárias, ocupai-vos sobretudo com as questões do sexo e do casamento. Esse assunto estaria no centro de vossas preocupações, de vossa instrução política e de vossa ação educativa! Não acreditei no que ouvi.

O primeiro estado no qual se realizou a ditadura proletária está cercado de contra-revolucionários de todo o mundo. A situação da própria Alemanha exige a máxima união de todas as forças revolucionárias proletárias para repelir os ataques sempre mais vigorosos da contra–revolução. E, agora, justamente agora, as comunistas ativas tratam da questão sexual, das formas de casamento no passado, no presente e no futuro, julgam que seu primeiro dever é instruir as operárias nessa ordem de idéias. Disseram-me que o folheto de uma comunista vienense sobre a questão sexual tivera amplíssima difusão. Que tolice, esse folheto! As poucas noções exatas que contém, as operárias já as conhecem desde Bebel e não sob a forma de um esquema árido e desinteressante, como no folheto, mas sob a forma de uma propaganda apaixonante, agressiva, cheia de ataques contra a sociedade burguesa. As hipóteses freudianas mencionadas no folheto em questão conferem ao mesmo um caráter que se pretende ‘científico’, mas no fundo se trata de uma confusão superficial. A própria teoria de Freud não é hoje senão um capricho da meda. Não tenho confiança alguma nessas teorias expostas em artigos, apreciações, folhetos etc., em resumo, nessa literatura específica que floresce com exuberância no terriço da sociedade burguesa. Desconfio daqueles que estão absorvidos constante e obstinadamente com as questões do sexo, como o faquir hindu com a contemplação do próprio umbigo.

Parece-me que essa abundância de teorias sexuais, que não são em grande parte senão hipóteses arbitrárias, provém de necessidades inteiramente pessoais, isto é, da necessidade de justificar aos olhos da moral burguesa a própria vida anormal ou os próprios instintos sexuais excessivos e de fazê-la tolerá-los.

Esse respeito velado pela moral burguesa repugna-me tanto quanto essa paixão pelas questões sexuais. Tem um belo revestimento de formas subversivas e revolucionárias, mas essa ocupação não passa, no fim das contas, de puramente burguesa. A ela se dedicam de preferência os intelectuais e as outras camadas da sociedade que lhes são próximas. Para tal tipo de ocupação não há lugar no Partido, entre o proletariado que luta e tem consciência de classe.»

Fiz notar que as questões sexuais e matrimoniais, no regime de propriedade privada, suscitavam múltiplos problemas, que eram causa de contradições e de sofrimentos para as mulheres de todas as classes e de todas as camadas sociais. A guerra e suas conseqüências, disse eu, agravaram ao extremo para a mulher as contradições e os sofrimentos que existiam antes, nas relações entre os sexos. Os problemas, ocultos até então, foram agora revelados aos olhos das mulheres e isto na atmosfera da revolução recém-começada. O mundo, dos velhos sentimentos, das velhas idéias desmorona por toda parte. Os vínculos sociais, de uma só vez, se enfraquecem e se rompem. Vêem-se surgir os germes de novas premissas ideológicas, que ainda não tomaram forma, para as relações entre os homens. O interesse que essas questões suscitam exprime a necessidade de uma nova orientação. Surge ainda a reação que se produz contra as deformações e as mentiras da sociedade burguesa. A mudança das formas matrimoniais e familiares no curso da História, em sua dependência da economia, constituem um bom meio para varrer do espírito das operárias a crença na perpetuidade da sociedade burguesa. Fazer a crítica histórica dessa sociedade significa dissecar sem piedade a ordem burguesa, desnudar sua essência e suas conseqüências e estigmatizar além disso a falsa moral sexual. Todos os caminhos levam a Roma. Toda análise verdadeiramente marxista de uma parte importante da superestrutura ideológica da sociedade ou de um fenômeno social importante deve conduzir à análise da ordem burguesa e de sua base, a propriedade privada; cada uma dessas análises deve conduzir a esta conclusão: «É preciso destruir Cartago.» Lênin sorria e fazia com a cabeça sinais de aprovação

«Muito bem. Tendes o ar de um advogado que defende seus companheiros e seu partido. Sem dúvida, o que dissestes é justo. Mas poderia servir apenas para desculpar o erro cometido na Alemanha, não para justificá-lo. Um erro cometido continua a ser um erro. Podeis garantir-me seriamente que as questões sexuais e matrimoniais são discutidas em vossas reuniões sempre do ponto de vista do materialismo histórico vital, bem compreendido? Isso exige conhecimentos vastos, aprofundados, conhecimento marxista, claro e preciso, de uma enorme quantidade de materiais. Dispondes, neste momento, das forças necessárias? Em caso afirmativo, não teria sucedido que um folheto, como aquele do qual falamos, fosse usado como material de estudo em vossas reuniões noturnas, dedicadas à leitura e ao. debate. Aquele folheto é recomendado e difundido, ao invés de ser criticado . A que conduz, na final das contas, esse exame insuficiente e não marxista da questão? Ao seguinte: a que os problemas sexuais e matrimoniais não sejam vistos como parte da principal questão social e que, ao contrário, a grande questão social, apareça como parte, como apêndice do problema sexual. A questão fundamental é relegada a segundo plano, como secundária. Isso não só prejudica a clareza da questão, mas obscurece o pensamento em geral, a consciência de classe das operárias.

Outra observação, que não é inútil. O sábio Salomão dizia: cada coisa a seu tempo. Peço-vos responder: é precisamente este o momento de manter ocupadas as operárias, meses inteiros, para falar-lhes do modo como se ama ou se é amado, do modo como se faz a corte ou se aceita a corte entre os vários povos, tanto no passado, como no presente e no futuro? E é isso que se denomina orgulhosamente de materialismo histórica! Neste momento, todos os pensamentos das operárias, das mulheres trabalhadoras devem estar voltados para a revolução proletária. Ela é que criará inclusive base para as novas condições de casamento e novas relações entre os sexos. Agora, realmente, devem passar para primeiro plano outras problemas, que não aqueles que se referem às formas de casamento entre os maorís da Austrália ou os casamentos realizados entre consangüíneos na antigüidade.

A História põe hoje na ordem do dia do proletariado alemão a questão dos sovietes, do tratado de Versalhes e da sua influência sobre a vida das massas femininas, o problema do desemprego, da rebaixa dos salários, dos impostos e muitas outras coisas. Em suma, penso que tal modo de educação política e social das operárias não é absolutamente o que deve ser feito. Como vos pudestes calar? Devíeis ter usado vossa autoridade!»

Ao meu amigo, que me criticava, expliquei que não havia perdido ocasião para criticar, para replicar às camaradas dirigentes, para fazer ouvir minha voz em diferentes lugares, mas ele devia saber que ninguém é profeta em sua terra, nem em sua família. Com a minha crítica tornava-me suspeita de continuar ainda fiel às sobrevivências da ideologia social-democrata e do espírito pequeno-burguês de velho estilo. No entanto, minha crítica acabou por dar seus frutos. Os problemas do sexo e do casamento não estavam mais no centro das nossas discussões em nossos círculos e em nossas reuniões noturnas destinadas aos debates. Lênin continuou a desenvolver seu pensamento.

«Eu sei, eu sei» — disse ele. «Também me acusam de filisteísmo. Mas isso não me perturba. Os pássaros que mal saíram do ovo das concepções burguesas crêem-se sempre terrivelmente inteligentes. É preciso ter calma. O próprio movimento juvenil está contaminado pela tendência moderna e pela predileção desmedida pelos problemas sexuais.»

Lênin sublinhou com ironia a palavra «moderna», com ar de desaprovação.

«Disseram-me que os problemas sexuais são mesmo um assunto predileto das vossas organizações juvenis. Nunca faltam relatores sobre esse assunto. Isto é particularmente escandaloso, particularmente deletério para o movimento juvenil. Tais assuntos podem contribuir facilmente para excitar, para estimular a vida sexual de certos indivíduos, para destruir a saúde e a força da juventude. Deveis lutar também contra essa tendência. O movimenta feminino e o juvenil têm muitos pontos de contacto. Nossas camaradas comunistas devem fazer, portanto, junto com os jovens, um trabalho sistemático. Isso trará como resultado elevá-las, transportá-las do mundo da maternidade individual para o da maternidade social. É preciso contribuir para todo despertar da vida social e da atividade da mulher, para ajudá-la a elevar-se acima da mentalidade estreita pequeno-burguesa, individualista, da sua vida doméstica e familiar.

Mesmo entre nós, uma grande parte da juventude trabalha diariamente para rever a concepção burguesa da ‘moral’ nos problemas sexuais. E devo dizê-lo, é a elite de nossa juventude, aquela que realmente promete muito. Como observastes, nas condições criadas pela guerra e pela revolução, os antigos valores ideológicos são abalados, perdem sua força. Os novos valores só se cristalizam lentamente, através da luta.

As concepções sobre as relações entre o homem e a mulher são transtornadas, assim como os sentimentos e as idéias. Delimitam-se de novo os direitos do indivíduo e os da coletividade e, por isso, os deveres do indivíduo. É um processo lento e muitas vezes doloroso, de perecimento e de nascimento. Isso é igualmente verdade no terreno das relações sexuais, do casamento e da família. A decadência, a putrefação, a lama do casamento burguês, com as suas dificuldades de dissolução, com a liberdade para o marido e a escravidão para a mulher, a mentira infame da moral sexual e das relações sexuais enchem os melhores homens de um desgosto profundo.

O jugo que as leis do Estado burguês fazem pesar sobre o casamento e a família agrava ainda mais o mal e torna os conflitos mais agudos. É o jugo da ‘sagrada propriedade’ que sanciona a venalidade, a baixeza, a obscenidade. E a hipocrisia convencional da ‘honrada’ sociedade burguesa faz o resto.

As pessoas começarão a revoltar-se contra essas deformações da natureza. E na época em que vacilam Estadas poderosos, em que desaparecem antigas formas de dominação, em que todo um mundo social perece, os sentimentos do indivíduo isolado se modificam rapidamente.

Difunde-se uma sede ardente de prazeres fáceis. As formas do casamento e das relações entre os sexos, no sentido burguês, já não satisfazem. Nesse terreno, aproxima-se uma revolução que corresponde à revolução proletária. Compreende-se que todo esse novelo extraordinariamente intricado de problemas preocupa profundamente tanto às mulheres como os jovens. Uns e outros sofrem particularmente da atual confusão nas relações sexuais. A juventude protesta contra esse estado de coisas com o ardor barulhento própria da idade. É compreensível. Nada seria mais falsa que pregar à juventude o ascetismo monástico e a santidade da imundície burguesa. Mas não está bem, penso eu, que os problemas sexuais colocados em primeiro plano por razões naturais, se tornem nestes anos a preocupação principal dos jovens. As conseqüências, algumas vezes, poderiam ser fatais.

Em sua nova atitude diante das questões concernentes à vida sexual, a juventude se apega, naturalmente, aos princípios, à teoria. Muitos qualificam sua posição de ‘revolucionária’ e ‘comunista’. Crêem sinceramente que assim seja. Não nos ouvem, a nós, velhos. Embora eu não seja absolutamente um asceta melancólico, essa nova vida sexual da juventude e freqüentemente, dos adultos, me parece muitas vezes totalmente burguesa, um dos múltiplos aspectos de um lupanar burguês. Tudo isso nada tem a ver com a ‘liberdade do amor’, tal como nós comunistas a concebemos. Conheceis, sem dúvida, a famosa teoria segundo a qual, na sociedade comunista, satisfazer o instinto sexual e o impulso amoroso é tão simples e tão insignificante como beber um copo de água. Essa teoria do ‘copo de água’ deixou a nossa juventude louca, inteiramente louca.

Ela foi fatal a muitos rapazes e moças. Seus defensores afirmam que é uma teoria marxista. Belo marxismo esse para o qual todos os fenômenos e todas as modificações que se dão na superestrutura ideológica da sociedade decorrem de pronta, em linha direta e sem quaisquer reservas, unicamente da base econômica! A coisa não é tão simples como parece. Um certo Frederico Engels, já há muito tempo, salientou em que consiste verdadeiramente o materialismo histórico.

Considero a famosa teoria do ‘copo de água’ como não marxista e, além disso, como anti-social. Na vida sexual se manifesta não só aquilo que deriva da natureza, mas também o que nos dá a cultura, quer se trate de coisas elevadas ou inferiores.

Engels, em sua Origem da Família, mostra toda a importância do desenvolvimento e da aprimoramento do amor sexual. As relações entre os sexos não são simplesmente a expressão da ação da economia social e da necessidade física, dissociadas no pensamento por uma análise psicológica.

A tendência a atribuir diretamente à base econômica da sociedade a modificação dessas relações, separando-as de sua conexão com toda a ideologia, já não seria marxismo, mas racionalismo. Sem dúvida, a sede deve ser saciada, Mas será que um homem normal, em condições igualmente normais, se deitará no chão, na rua, para beber água suja de um lameiro? Ou beberá. em um copo marcado nas beiradas por dezenas, de outros lábios? Todavia o mais importante é o aspecto social. De fato, beber água é coisa pessoal. Mas, no amor, estão interessadas duas pessoas e pode vir uma terceira, um novo ser. É disso que surge o interesse social, o dever para com a coletividade. Como comunista, não sinto simpatia alguma pela teoria do ‘copo de água’, embora traga a etiqueta de ‘amor livre’. Além de não ser comunista, essa teoria nem é nova sequer. Recordai-vos, certamente, de que foi ‘pregada’ na literatura em meados do século passado, como ‘emancipação do coração’, que a prática burguesa transformou depois em ‘emancipação da carne’. Então, se pregava com mais talento que hoje. Quanto à prática, não posso julgá-la.

Não desejo, absolutamente, com minha crítica, pregar o ascetismo. Longe disso. O comunismo deve trazer não o ascetismo, mas a alegria de viver e o bem-estar físico, devidos também, à plenitude do amor. Penso que o excesso que.se observa hoje, na vida sexual não produz nem a alegria de viver nem o bem-estar físico, mas, pelo contrário, os diminuem. Ora, em épocas revolucionárias isto, é mau, muito mau.

Particularmente a juventude necessita da alegria de viver e do bem-estar físico. Esporte, ginástica, natação, excursões, todo tipo de exercícios físicos, variados interesses intelectuais, estudos, análises, pesquisas: aprender, estudar, pesquisar, quanto mais possível, em comum. Tudo isso dará à juventude muito mais que a teoria e as discussões intermináveis sobre a questão sexual e sobre a assim chamada maneira de ‘gozar a vida’.

Mente sã em corpo são. Nem monge, nem D. Juan e nem mesmo, como meio-termo, filisteu alemão. Conheceis bem vosso jovem camarada Huz. É um jovem perfeito, bem dotado, mas receio que não dê nada de bom. Lança-se de uma aventura amorosa a outra. Isto é um mal para a luta política e para a revolução. Não confiarei, quanto à segurança e à firmeza na luta, nas mulheres cujos romances pessoais se misturam cem a política, nem nos homens que correm atrás de todas as saias e os que se deixam enfeitiçar pela primeira moça que surge. Não, isso não é compatível com a revolução.»

Lênin se ergueu bruscamente, bateu na mesa e deu alguns passos pela sala.

«A revolução exige concentração, tensão das forças, tanto das massas, como dos indivíduos. Não pode tolerar estados orgíacos, do tipo peculiar às heroínas e aos heróis decadentes de D’Annunzio. Os excessos na vida sexual são sinal de decadência burguesa. O proletariado é uma classe em ascensão. Não necessita inebriar-se, atordoar-se, excitar-se. Não precisa embriagar-se nem com excessos sexuais, nem com álcool. Não deve olvidar, e não olvidará a baixeza, a lama e a barbárie do capitalismo. Haure seus maiores impulsos de luta na situação de sua classe e no ideal comunista. O que lhe é necessário é clareza e sempre clareza. Assim, repito, nada de fraqueza, nada de desperdício ou destruição de forças. Dominar-se, disciplinar os próprios atos não é escravidão, e é igualmente necessário no amor.

Mas, desculpai-me, Clara, afastei-me muito do ponto de partida de nossa conversação. Por que não me chamaste à ordem? Deixei–me levar pelo ardor. O futuro de nessa juventude me preocupa muito. A juventude é uma parte da revolução. Ora, se as influências nocivas da sociedade burguesa começam a atingir até mesmo o mundo da revolução, como as raízes amplamente ramificadas de algumas ervas, é melhor reagir em tempo. Tanto mais quanto essas questões também dizem respeito ao problema feminino.»

Lênin falara com muita vivacidade e convicção. Eu sentia que cada uma de suas palavras vinha do fundo do coração; a expressão de seu rosto comprovava isso. Um movimento enérgico da mão sublinhava às vezes seu pensamento. O que me assombrava era vê-lo, embora enfronhado nos problemas políticos mais urgentes e graves, dar tanta atenção às questões secundárias e analisá-las com tanto cuidado, não se limitando apenas ao que se referia à Rússia soviética, mas ocupando-se também dos países capitalistas. Como perfeito marxista, Lênin concebia cada fenômeno isolado, sob qualquer forma e em qualquer lugar que surgisse, relacionado com o geral, com o todo, apreciando o valor do primeiro na dependência do segundo. Sua vontade, sua aspiração vital, sua energia, irresistível como uma força da natureza, estavam inteiramente voltadas para acelerar a revolução, na qual vira a causa das massas. Lênin avaliava cada fenômeno do ponto de vista da influência que pudesse exercer sobre as forças de combate nacionais e internacionais da revolução, porque via sempre diante de si, — levando em conta as particularidades históricas nos diferentes países e as diversas etapas de seu desenvolvimento — uma única e indivisível revolução proletária mundial. «Como lamento, camarada Lênin, — exclamei eu — que centenas e milhares de pessoas não tenham ouvido vossas palavras. A mim, sabeis bem, não precisais convencer. Mas seria extremamente importante que vossa opinião fosse conhecida por nossos amigos e por nossos inimigos.» Lênin sorriu.

«Um dia talvez pronuncie um discursa ou escreva sobre este assunto. Não agora, mais tarde. Hoje devemos concentrar todo o nosso tempo e todas as nossas forças em outras questões. Agora, temos outros problemas mais graves e mais árduas. A luta pela manutenção e consolidação do poder soviético ainda está muito longe de seu termo. Ainda precisamos tirar as melhores vantagens possíveis da guerra com a Polônia. Wrangel continua no sul. Tenho a firme convicção, é verdade, de que a venceremos; o que dará que pensar aos imperialistas franceses e ingleses e a seus pequenos vassalos. Mas a parte mais difícil de nosso trabalho, a reconstrução, ainda está por realizar.

Através desse processo ganharão igualmente importância a questão das relações entre os sexos, e as questões de casamento e família. Enquanto isso, deveis lutar sempre e em toda parte. Não deveis permitir que tais questões sejam tratadas de maneira não marxista, que criem um terreno favorável a desvios e deformações prejudiciais. E agora passemos ao vosso trabalho.»

Lênin olhou o relógio.

«O tempo de que dispunha — disse ele — já se reduziu à metade. Falei demais. Apresentai por escrito vossas propostas para o trabalho comunista entre as mulheres. Conheço vossos princípios e vossa experiência: nossa conversa por isso será breve. Ao trabalho, pois! Quais são vossos projetos?»

Eu os expus. Enquanto falava, Lênin fez muitas vezes sinais de aprovação. Quando terminei, olhei-o interrogativamente.

«De acordo — disse Lênin. — Discuti com Zinoviev e seria bom se pudésseis discutir também numa reunião de dirigentes comunistas. É pena, realmente pena, que a camarada Inês não esteja aqui; Está doente, partiu para o Cáucaso. Depois da discussão, apresentai as propostas por escrito. Uma comissão as examinará e depois o Executivo decidirá. Desejo esclarecer apenas alguns pontas nos quais compartilho de vossa opinião. Parecem-me importantes para o nosso atual trabalho de agitação e propaganda, se esse trabalho pretender de fato conduzir à ação e a uma luta coroada de êxito. As teses devem deixar bastante claro que somente através do comunismo se realizará a verdadeira libertação da mulher. É preciso salientar os vínculos indissolúveis que existem entre a posição social e a posição humana da mulher: isto servirá para traçar uma linha clara e indelével de distinção entre a nossa política e o feminismo. Esse ponto será mesmo a base para tratar o problema da mulher como parte da questão social, como problema que toca aos trabalhadores, para uni-lo sòlidamente à luta de classe do, proletariado. O movimento comunista feminino deve ser um movimento de massas, uma parte do movimento geral de massas, não só do proletariado, mas de todos os explorados e de todos os oprimidos, de todas as vítimas do capitalismo e de qualquer outra forma de escravidão. Nisso está sua significação no quadro da luta de classes do proletariado e de sua criação histórica: a sociedade comunista.

Temos o direito de estar orgulhosos de possuir no Partido e na Internacional a fina flor das mulheres revolucionárias. Mas isso não basta. Devemos atrair para o nosso campo milhões de mulheres trabalhadoras das cidades e do campo. Devemos atrai-las para o nosso lado a fim de que contribuam em nossa luta e particularmente na transformação comunista da sociedade. Sem as mulheres não pode existir um verdadeiro movimento de massas. Nossas concepções ideológicas comportam problemas específicos de organização. Nenhuma organização especial para as mulheres. Uma mulher comunista é membro do Partido tanto como um homem comunista. Não deve existir quanto a isso nenhuma imposição especial. Todavia, não devemos esquecer que o Partido deve possuir pessoas, grupos de trabalho, comissões, comitês, escritórios ou o que mais for preciso, com a tarefa específica de despertar as massas femininas, de manter contacto com elas e de influenciá-las. Isso. exige, é evidente, um trabalho sistemático.

Devemos educar as mulheres que ganharmos para nessa causa e torná-las capazes de participar da luta de classe do proletariado, sob a direção do Partido Comunista. Não me refiro apenas às mulheres proletárias, que trabalham na fábrica ou em casa. Também as camponesas pobres, as pequeno-burguesas, são vítimas do capitalismo e o são ainda mais em caso de guerra. A mentalidade antipolítica, anti-social e atrasada dessas mulheres, o isolamento a que as obriga sua atividade, todo o seu modo de vida; eis fatos que seria absurdo, completamente absurdo, subestimar. Necessitamos de organismos apropriados para realizar o trabalho entre as mulheres. Isso não é feminismo: é o caminho prático, revolucionário.»

Disse a Lênin que suas palavras me infundiam coragem: muitos camaradas e além disso bons camaradas, se opunham decididamente à idéia de que o Partido constituísse organizações especiais para o trabalho entre as mulheres. Rejeitavam-na como feminismo e como retorno às tradições social-democratas e afirmando que os Partidos Comunistas, ao adotar como princípio a igualdade de direitos entre homens e mulheres, deviam trabalhar sem fazer diferenças entre as massas trabalhadoras. As mulheres devem ser admitidas rias nossas organizações como os homens e sem distinção alguma. Qualquer discriminação tanto na agitação como na organização, decorrente das circunstâncias descritas por Lênin, era tachada de oportunismo, por parte daqueles que a ela se opunham, como uma capitulação e uma traição.

«Isso não é uma novidade nem uma prova — disse Lênin — e não vos deveis deixar desviar. Por que nunca tivemos no Partido um número igual de homens e mulheres, nem mesmo na República soviética? Por que é tão diminuto o número de mulheres trabalhadoras filiadas aos sindicatos? Tais fatos devem levar-nos a refletir. Não reconhecer a necessidade de organização diferenciada para o nosso trabalho entre as massas femininas significa ter uma concepção, idêntica à dos nossos ma;s radicais e altamente morais amigos do Partido Comunista(2) Operário, segundo os quais devia existir uma única forma de organização: os sindicatos operários. Conheço-os. Muitos revolucionários atacados de confusionismo se apegam aos princípios quando lhes faltam idéias’, ou seja, quando sua inteligência está fechada para os fatos puros e simples, para os fatos a considerar. Mas como podem os guardiães dos ‘princípios puros’ adaptar suas idéias às exigências da política revolucionária que o momento histórico comporta? Todo aquele palavrório se desfaz, diante da necessidade inexorável. Somente se milhões de mulheres estiverem conosco poderemos exercer a ditadura do proletariado, poderemos construir segunda diretrizes comunistas. Devemos encontrar a maneira de uni-las, devemos estudar para encontrar essa maneira. Por isso é justo formular reivindicações em favor das mulheres: já não se trata de um programa mínimo, de um programa de reformas, no sentido dos social-democratas da II Internacional. Não é um reconhecimento da eternidade ou pelo menos da longa duração do poder da burguesia e da sua forma estatal. Não é uma tentativa de satisfazer as mulheres com reformas e desviá-las do caminho da luta revolucionária. Não se trata disso nem de outros truques reformistas. Nossas exigências se apóiam nas conclusões práticas que tiramos das necessidades prementes, da vergonhosa humilhação da mulher e dos privilégios do homem.

Odiamos, sim; odiamos tudo aquilo que tortura e oprime a mulher trabalhadora, a dona de casa, a camponesa, a mulher do pequeno comerciante e, em muitos casos, a mulher das classes possuidoras. Exigimos da sociedade burguesa uma legislação social em favor da mulher, porque compreendemos a situação destas e seus interesses, aos quais dedicaremos nossa atenção durante a ditadura do proletariado. Naturalmente, não o exigimos como fazem os reformistas, utilizando palavras brandas para convencer as mulheres a permanecer inativas, contendo-as. Não, naturalmente não, mas como convém a um revolucionário, chamando-as para trabalhar lado a lado a fim de transformar a velha economia e a velha ideologia.»

Disse a Lênin que compartilhava de suas idéias, as quais teriam certamente encontrado resistência e seriam julgadas oportunismo perigoso por parte de elementos inseguros e temerosos. Nem se poderia negar, aliás, que nossas reivindicações imediatas em favor das mulheres teriam podido ser mal interpretadas e mal expressas.

«Tolice!» — respondeu Lênin quase colérico. «Esse perigo é inato a tudo que dizemos e fazemos. Se esse receio devesse dissuadir-nos de fazer o que é justo e necessário, então seria melhor nos tornarmos hipnotizadores hindus. Não te movas, não te movas! Contemplemos nossos princípios do alto de uma coluna! Naturalmente, preocupamo-nos não só com o conteúdo de nossas reivindicações, mas também com o modo de as formular. Naturalmente, não formularemos nessas reivindicações para as mulheres como se desfiássemos mecanicamente as contas de nosso rosário. Não, segundo as exigências do momento, lutaremos ora por este objetivo, ora por aquele. E, naturalmente, tendo sempre presentes os interesses gerais do proletariado.

Cada uma dessas lutas se erguerá contra as respeitáveis relações burguesas e os seus não menos respeitáveis admiradores reformistas, que obrigaremos a lutar ao nosso lado, sob a nossa bandeira — o que eles não desejam — ou denunciaremos o que são. Além disso, finalmente, a luta desvenda as diferenças entre nós e os outros partidos, torna claro nosso comunismo. Assegura-nos a confiança das massas femininas que se sentem exploradas, submetidas, oprimidas pelo homem, pelo patrão, por toda a sociedade burguesa. Traídas e abandonadas por todos, as trabalhadoras reconhecerão que deve lutar ao nosso lado. É preciso que vos lembre novamente que a luta por nossas reivindicações a favor das mulheres deve estar ligada à finalidade de conquistar o poder e de realizar a ditadura do proletariado? Esse é hoje nosso objetivo fundamental.

Mas não basta simplesmente proclamá-lo continuamente, como se soássemos as trombetas de Jerico, para que as mulheres se sintam atraídas irresistivelmente para a nossa luta pelo poder estatal. Não; não! As mulheres devem adquirir consciência da ligação política que existe entre as nessas reivindicações e seus sofrimentos, suas necessidades, suas aspirações. Devem compreender o que significa para elas a ditadura do proletariado: completa igualdade com o homem diante da lei a na prática, na família, no Estado, na sociedade; o fim do poder da burguesia.»

«A Rússia soviética é uma prova disso,» — interrompi eu.

«Esse grande exemplo servirá para ensinar-lhes — continuou Lenin. — A Rússia soviética lança nova luz sobre nossas reivindicações em favor das mulheres. Sob a ditadura do proletariado, essas reivindicações não são objeto de luta entre o proletariado e a burguesia. Pertencem à estrutura da sociedade comunista, indicam às mulheres dos outros países a importância decisiva da tomada da poder, por parte do proletariado. É preciso que a diferença seja decididamente salientada, para que as mulheres participem da luta de classe do proletariado.

Ganhá-las para nossa causa, por meio de uma compreensão clara e de uma sólida organização básica é essencial para os partidos comunistas e para o triunfo deles. Não nos deixemos enganar, porém. Nossas seções nacionais ainda não têm uma visão clara do problema. Estão inertes, quando lhes cabe a tarefa de criar um movimento de massas sob a direção dos comunistas. Não compreendem que o desenvolvimento e a organização de tal movimento de massas é parte importante de toda a atividade do Partido; que é, na realidade, uma boa metade de todo o trabalho do Partido. O reconhecimento ocasional da necessidade e do valor de um movimento comunista forte e bem dirigido é um reconhecimento em palavras, platônico, e não um empenho e uma preocupação constante do Partido.

O trabalho de agitação e de propaganda entre as mulheres, a difusão do espírito revolucionário entre elas, são considerados problemas ocasionais, tarefas que cabem unicamente às companheiras. Somente às companheiras se reprova e adverte se o trabalho nessa frente não caminha mais rápida e energicamente. Isso é mal, muito mal. É separatismo puro e simples, é feminismo à rebours, como dizem os franceses, feminismo às avessas! Que é que está na base dessa atitude errada de nossas seções nacionais? Em última análise, trata-se de uma subestimação da mulher e de seu trabalho. Justamente isso! Infelizmente, ainda pode dizer-se de muitos companheiros: ‘Raspa um comunista e encontrarás um filisteu!’ Evidentemente, deve-se raspar no ponto sensível, em sua concepção sobre a mulher. Pode haver prova mais condenável do que a calma aceitação dos homens diante do fato de as mulheres se consumirem no trabalho humilhante, monótono, da casa, gastando e desperdiçando energia e tempo e adquirindo uma mentalidade mesquinha e estreita, perdendo toda sensibilidade, toda vontade? Naturalmente, não me refiro às mulheres da burguesia, que descarregam sobre as empregadas a responsabilidade de todo o trabalho doméstico, inclusive a amamentação dos filhos. Refiro-me à esmagadora maioria das mulheres, às mulheres dos trabalhadores e àquelas que passam o dia numa oficina. Pouquíssimos homens — mesmo entre os proletários — se apercebem da fadiga e da dor que poupariam à mulher se dessem uma mão ‘ao trabalho da mulher’. Mas não, isto vai de encontro aos ‘direitos e à dignidade do homem’: este quer paz e comodidade. A vida doméstica de uma mulher constitui um sacrifício diário, feito por mil ninharias. A velha supremacia do homem sobrevive em segredo. A alegria do homem e sua tenacidade na luta diminuem, diante do atraso da mulher, diante de sua incompreensão dos ideais revolucionários: atraso e incompreensão que, como cupim, secretamente, lentamente mas sem salvação, roem e corroem. Conheço a vida dos trabalhadores não apenas através dos livros. Nosso trabalho de comunistas entre as mulheres, nosso trabalho político, exige uma boa dose de trabalho educativo entre os homens. Devemos varrer por completo a velha idéia do ‘patrão’, tanto no Partido, como entre as massas. É uma tarefa política nossa não menos importante que a tarefa urgente e necessária de criar um núcleo dirigente de homens e mulheres, bem preparados teórica e praticamente para desenvolver entre as mulheres uma atividade de Partido.»

Diante de minha pergunta sobre a situação na Rússia soviética, no que diz respeito a esse problema, Lênin respondeu:

«O governo da ditadura do proletariado, juntamente com o Partido Comunista e os sindicatos, naturalmente nada deixou de tentar, no esforço para eliminar o atraso dos homens e das mulheres, para destruir a velha mentalidade não comunista. A lei estabelece, naturalmente, a completa igualdade de direitos entre homens e mulheres. E o desejo sincero de traduzi-la na pratica existe em toda parte. Introduzimos a mulher na economia social, no poder legislativo e no governo. Abrimos-lhe as portas de nossas instituições educacionais para que possa aumentar sua capacidade profissional e social. Criamos cozinhas comunais e restaurantes, lavanderias, laboratórios, creches e jardins de infância, casas para crianças, institutos educativos de toda espécie.

Em resumo, estamos realizando seriamente nosso programa de transferir para a sociedade as funções educativas e econômicas do núcleo familiar. Isso significa para a mulher a libertação da velha fadiga doméstica aniquilante e do estado de submissão ao homem. Isso lhe permitirá desenvolver plenamente seu talento e suas inclinações. As crianças são criadas melhor que em suas casas, tara as trabalhadoras, temos as leis protetoras mais avançadas do mundo que os dirigentes dás organizações sindicais põem em prática. Estamos construindo maternidades, casas para as mulheres e as crianças, clínicas femininas; organizamos cursos de puericultura e exposições para ensinar às mulheres a cuidar de si próprias e dos seus filhos etc.; fazemos sérios esforços para ajudar às mulheres desocupadas e sem amparo.

Compreendemos perfeitamente que tudo isso é insuficiente, diante das necessidades das trabalhadoras, diante das condições existentes na Rússia capitalista e tzarista. Mas já é muito em comparação com os países onde ainda impera o capitalismo. É um bom início, na direção justa, e, tende certeza, nessa direção continuaremos a caminhar com toda nossa energia. Cada dia de existência do Estado soviético demonstra de fato que não podemos avançar sem as mulheres. Pensai o que significa isso, num país em que os camponeses constituem cerca de 80% da população! Pequena economia camponesa significa pequenos núcleos familiares separados, com as mulheres acorrentadas a esse sistema. Para vós, desse ponto de vista, a tarefa será mais fácil e melhor de realizar, com a condição de que vossas mulheres proletárias saibam aproveitar o memento histórico objetivo para a tomada do poder, para a revolução. Nós não desesperamos. Nessa força cresce com as dificuldades. A força das coisas impelirá a buscar novas medidas para libertar as massas femininas. A cooperação no regime soviético, fará muito. Cooperação no sentido comunista e não burguês, naturalmente, cooperação não como a pregam os reformistas, cujo entusiasmo, ao contrário de revolucionário, não é senão um fogo de palha. A iniciativa individual deve seguir passo a passo com a cooperação, a qual deve crescer e fundir-se com a atividade das comunas. Sob a ditadura do proletariado, a libertação da mulher se realizará através do desenvolvimento do comunismo, também no campo. Tenho grandes esperanças na eletrificação da indústria e da agricultura. Um trabalho imenso! E as dificuldades para pô-lo em prática são grandes, enormes! Para realizá-lo é preciso despertar a energia das massas. E a energia de milhões de mulheres nos ajudará.»

Nos últimos dez minutos haviam batido duas vezes à porta, mas Lênin continuara a falar. Nesse ponto, abriu a porta, dizendo: «Já vou.» Depois, voltando-se para mim, acrescentou sorrindo:

«Sabeis, Clara, eu me justificarei explicando que estava cem uma mulher. Desculpar-me-ei pelo atraso aludindo à conhecida volubilidade feminina. De fato, desta vez foi o homem e não a mulher quem falou muito. Posso, aliás, testemunhar que sabeis escutar com seriedade. Talvez isso tenha estimulado minha eloqüência.» Brincando assim, ajudou–me a vestir o capote. «Deveis abrigar-vos melhor» — disse seriamente. «Moscou não é Estocolmo. Deveis ter cuidado convosco. Não apanheis frio. Auf wiedersehen!». Apertou-me cordialmente a mão.

Duas semanas depois tive com Lênin outra conversa sobre o movimento feminino. Lênin viera procurar-me. Como de costume, sua visita inesperada, foi uma pausa improvisada, em meio ao trabalho extenuante que iria depois abater o chefe da revolução vitoriosa. Ele parecia muito cansado e preocupado. A derrota de Wrangel ainda não estava assegurada e o problema do abastecimento das grandes cidades se erguia diante do governo soviético como uma esfinge inexorável. Lênin pediu notícias sobre as diretivas ou teses. Disse-lhe que todas as companheiras dirigentes que se encontravam em Moscou se haviam reunido e exposto suas opiniões. Suas propostas eram agora examinadas por uma comissão reduzida. Lênin recomendou-me não esquecer que o III Congresso mundial deveria tratar da questão com a atenção necessária.

«Esse simples fato destruirá muitos preconceitos das companheiras. Quanto ao resto, as camaradas devem lançar-se ao trabalho e trabalhar energicamente, não murmurando, por entre os lábios, como velhas tias, mas falando em voz alta, claramente, como combatentes» — exclamou Lênin com ardor. «Um congresso não é uma sala de visitas, onde as mulheres brilham com seus encantos, como dizem os romances. É a arena onde começamos a agir como revolucionários. Demonstrai que sabeis lutar. Antes de tudo, contra o inimigo, naturalmente, mas, se é preciso, mesmo no seio do Partido. Teremos o que fazer, com milhões de mulheres. Nosso Partido russo será favorável a todas as propostas e medidas que contribuam para atraídas para nossa movimento. Se não estão conosco, a contra-revolução poderá conduzi-las contra nós. Devemos sempre pensar nisto. Devemos conquistar as massas femininas, quaisquer que sejam as dificuldades.»

Aqui, no meio da revolução, no meio daquele burburinho de atividade, com aquele rápido e forte ritmo de vida, havia eu elaborado um plano de ação internacional entre as massas de trabalhadoras. «Minha idéia surgiu de vossos grandiosos congressos e reuniões de mulheres sem-partido. Transportaremos essa idéia do plano nacional para o internacional. É inegável que a guerra mundial e suas conseqüências golpearam profundamente todas as mulheres, das várias classes e camadas sociais. Elas têm vivido um período de fermentação e de atividade. O problema que as envolve hoje é o de conservar a vida. Como viver? A maior parte delas não havia pensado jamais que se pudesse chegar a tal ponto e somente poucas compreenderam o porquê disto. A sociedade burguesa não pode dar uma resposta satisfatória a esse problema. Somente o comunismo pode fazê-lo. Devemos levar as mulheres dos países capitalistas a compreender esse fato e precisamente por isso organizaremos um congresso internacional de mulheres, sem distinção de partido.» Lênin não respondeu logo. Com o olhar fixo, profundamente absorto, os lábios cerrados, o lábio inferior ligeiramente estendido, pesava minha sugestão. Depois disse:

«Sim, devemos fazê-lo. É um bom plano. Mas os bons planos, mesmo os melhores, de nada valem se não são bem realizados. Pensastes como realizá-lo? Qual o vosso ponto de vista a respeito disso?»

Expus-lhe os detalhes. Em primeiro lugar, devia-se organizar um comitê de companheiras dos vários países que manteria contacto estreito com as seções nacionais e preparar, elaborar, em seguida, o congresso. Restava decidir se, por razões de oportunidade, o comitê deveria começar a trabalhar logo oficialmente e publicamente. De qualquer maneira, seus membros deviam, como primeira coisa, pôr-se em contacto com as dirigentes dos movimentos sindicais e políticos, das organizações femininas burguesas de todo tipo (inclusive médicas, jornalistas, professoras etc.) e formar em cada país um comitê nacional organizador apartidário. O comitê internacional, composto de membros dos comitês nacionais, deveria estabelecer a data, o lugar e o programa de trabalho do congresso. O congresso, na minha opinião, deverá tratar, em primeiro lugar, do direito das mulheres ao trabalho profissional. Nesse ponto,, se poderão inscrever as questões do desemprego, do salário igual para trabalho igual, da jornada legal de oito horas, da legislação de proteção à mulher, dos sindicatos e das organizações profissionais de previdência social para a mãe e o filho, das instituições sociais para ajudar as donas de casas e as mães etc. A ordem do dia deveria portanto incluir a seguinte tema: a situação da mulher no direito matrimonial e familiar e no direito público político. Uma vez aprovadas essas propostas, sugeria que os comitês nacionais realizassem entre as mulheres ativas e trabalhadoras de todas as camadas sociais, uma campanha sistemática, por meio da imprensa e dos comícios, a fim de preparar o congresso e assegurar-lhe a presença e a cooperação de representantes de todas as organizações com as quais se houvesse tomado contacto, bem como de delegações de reuniões públicas femininas. O congresso poderia ser uma «representação do povo», mas bem diversa do parlamento. Naturalmente, as mulheres comunistas deveriam ser não somente a força motriz, mas também a força dirigente no trabalho de preparaçâo, na atividade do comitê internacional e no próprio congresso e, finalmente, na aplicação das decisões. No congresso deveriam ser apresentadas, sobre todos os pontos da ordem do dia, teses e resoluções comunistas inspiradas em princípios unitários e baseadas no exame científico das condições existentes. Essas teses seriam depois discutidas e aprovadas pelo Executivo da Internacional. Palavras de ordem comunistas e propostas comunistas deveriam estar no centro do trabalho do congresso, exigindo a atenção geral. Após o congresso, essas mesmas palavras de ordem deveriam ser difundidas entre as mais amplas massas femininas, a fim de impulsionar uma ação internacional de massas, por parte das mulheres. A condição indispensável para que as mulheres comunistas desenvolvessem um bom trabalho nos comitês e no congresso era manterem-se solidamente unidas, trabalhar coletiva e sistematicamente, apoiando-se em princípios claros e bem determinados. Nenhuma comunista devia sair da linha traçada. Enquanto eu falava, Lênin aprovava com sinais de cabeça ou fazia breves comentários de concordância.

«Parece-me, querida camarada — disse ele — que estudastes muito bem o aspecto político da questão e mesmo os problemas fundamentais de organização. Estou firmemente convencido de que neste momento um congresso semelhante pode desenvolver trabalho importante. Pode conquistar para a nossa causa, amplas massas de mulheres: massas de profissionais, de trabalhadoras na indústria, de donas-de-casa, de professoras e outras. Bem, muito bem. Pensai: em caso de graves divergências entre os grupos industriais ou de greves políticas, que aumento de força representa para o proletariado revolucionário a contribuição das mulheres, que se revoltam conscientemente. Naturalmente tudo isso sucederá se soubermos atrai-las e mantê-las em nosso movimento. A vantagem será grande, imensa. Mas existem algumas questões. É possível que as autoridades governamentais não vejam cem bons olhos os trabalhos do congresso, que tentem impedi-lo. Não creio que tentem sufocá-lo por meios brutais. O que irão fazer não vos deverá atemorizar. Mas não receais que nos comitês e no congresso as comunistas se deixem controlar pela maioria numérica dos elementos burgueses e reformistas e pela força desigual de sua routine? Finalmente, e sobretudo, tendes realmente confiança na preparação marxista das nessas camaradas a tal ponto de fazer delas um pelotão de assalto, que sairá da luta com honra?»

Respondi que indubitavelmente as autoridades não iriam recorrer à violência contra o congresso. Expedientes e medidas brutais serviriam apenas para fazer propaganda do próprio congresso. O número e o peso dos elementos não comunistas seria enfrentado por nós, comunistas, com. a força superior que deriva de uma compreensão e de uma elucidação científica dos problemas sociais, à luz do materialismo histórico, da coerência de nossas reivindicações e propostas e, por último, mas não menos importante, da vitória da revolução proletária na Rússia e de sua ação de vanguarda para a libertação da mulher. As debilidades e as deficiências das companheiras individualmente, no que se referia à sua educação e capacidade de compreender as situações, pode-riam ser superadas com o trabalho coletivo e a preparação sistemática. Muito espero das camaradas russas, que deverão, ser o núcleo de aço de nossa falange. Com elas, ousarei muito mais que lutas congressistas. Além disso, mesmo se fôssemos derrotadas pelo voto, nossa própria luta teria lançado o comunismo em primeiro plano, com um excelente resultado propagandístico e serviria para criar novos vínculos para o nosso trabalho futuro. Lênin riu gostosamente:

«Sempre o mesmo entusiasmo pelas mulheres revolucionárias russas! Sim, sim, o velho amor ainda não acabou. E creio que tendes razão. Mesmo a derrota, depois de uma boa luta assinalaria uma vantagem e uma preparação para êxitos futuros entre as trabalhadoras. Considerando tudo, vale a pena arriscar. Todavia, naturalmente, espero de todo o coração a vitória. Seria uma importante contribuição de força, um grande desenvolvimento e reforço de nossa frente, traria nova vida, movimento e atividade a nossas fileiras. E isso é sempre útil. Semelhante congresso acelerará a desintegração das forças contra-revolucionárias e por isso, as debilitará. Todo debilitamento das forças do inimigo representa ao mesmo tempo um reforço de nossa potência. Aprova o congresso. . .»

Desgraçadamente, o congresso fracassou, por causa da atitude das camaradas alemãs e búlgaras que, naquele tempo, constituíam o melhor movimento feminino comunista fora da Rússia. Elas repeliram a proposta de organizar o congresso. Quando eu o disse a Lênin, ele exclamou:

«Pena, uma verdadeira pena! As camaradas deixaram fugir uma esplêndida ocasião para lançar um raio de esperança às massas de trabalhadoras e de trazê-las para a luta revolucionária da classe operária. Quem sabe quando se apresentará novamente uma ocasião tão favorável? É preciso malhar o ferro enquanto está quente. A tarefa continua. Deveis encontrar o modo de unir as mulheres que o capitalismo lançou na mais pavorosa miséria. Deveis encontrado, deveis. Não nos podemos furtar a esta necessidade. Sem uma atividade organizada de massas, sob a direção dos comunistas, não se pode obter a vitória sobre o capitalismo, nem a construção do comunismo. Eis porque as mulheres terminarão por revoltar-se. .


Notas:

(1) Referência a Rosa Luxemburgo, destacada dirigente do movimento comunista alemão. (N. da ed. bras.) (retornar ao texto)

(2) Em 1919, destacou-se do Partido Comunista da Alemanha (espartaquiano) uma fração de esquerda que se constituiu em Partido Comunista Operário da Alemanha, cujo extremismo foi denunciado, no ano seguinte, pelo II Congresso da Internacional Comunista. (retornar ao texto)

images.jpg• NESSA terça-feira não houve notícia internacional nova. A minha modesta mensagem ao povo, na segunda-feira, 18 de fevereiro, foi amplamente divulgada sem dificuldade. Às 11h comecei a receber notícias concretas. Na noite anterior, dormi como nunca. Tinha a consciência tranqüila e me tinha prometido umas férias. Os dias tensos esperando a proximidade de 24 de fevereiro, deixaram-me exausto.

Hoje não direi nem uma só palavra sobre pessoas muitos queridas em Cuba e no mundo, que expressaram de maneiras diferentes suas emoções. Recebi também um elevado número de opiniões recolhidas na rua com métodos confiáveis, que, quase sem excepção e de forma espontânea, exprimiram seus mais profundos sentimentos de solidariedade. Um dia falarei no tema.

Neste instante, dedico-me ao adversário. Desfrutei observando a posição embaraçosa de todos os candidatos à presidência dos Estados Unidos. Viram-se obrigados, um por um, a proclamarem imediatamente suas exigências a Cuba para não arriscar um só eleitor. Nem que eu fosse Prêmio Pulitzer interrogando-os na CNN sobre os assuntos políticos mais delicados e inclusive, pessoais, em Las Vegas, onde reina a lógica do acaso das roletas de jogo e lugar que é preciso freqüentar humildemente se alguém aspirar à presidência.

Meio século de bloqueio parecia pouco aos prediletos. Mudança, mudança, mudança!, gritavam em uníssono.

Concordo com isso, mudança!, mas nos Estados Unidos. Há tempo que Cuba mudou e continuará seu rumo dialético. Não regressar jamais ao passado!, exclama nosso povo.

Anexação, anexação, anexação!, responde o adversário; é isso que pensa bem no fundo quando fala em mudança.

Martí, quebrando o silêncio de sua luta silenciosa, denunciou o império voraz e expansionista já revelado e descrito por sua genial inteligência, mais de um século depois da declaração revolucionária de independência das 13 colônias.

Não é mesma coisa o fim de uma etapa que o início do fim de um sistema insustentável.

Logo, as minguadas potências européias aliadas a esse sistema, proclamam as mesmas exigências. A seu ver, era hora de dançar com a música da democracia e da liberdade que, desde os tempos de Torquemada, jamais conheceram realmente. O colonialismo e o neocolonialismo aplicados a continentes inteiros, donde tiram energia, matérias-primas e mão-de-obra  baratas, os desqualificam moralmente.

Um ilustríssimo personagem espanhol, ex-ministro da Cultura e socialista impecável, hoje, e há tempo, defensor do armamentismo e da guerra, é a síntese da sem-razão pura. Kosovo e a declaração unilateral de independência abala-os neste instante como um pesadelo impertinente.

No Iraque e no Afeganistão continuam morrendo homens de carne e osso com fardas dos Estados Unidos e da OTAN.  A lembrança da URSS, desintegrada por uma parte pela aventura intervencionista no segundo dos dois países, persegue os europeus como uma sombra.

Bush pai postula McCain como seu candidato, ao passo que Bush filho, num país da África ― ontem, lugar de origem do homem, e hoje continente mártir ― onde ninguém sabe o que ele ali faz, disse que minha mensagem era o início do caminho da liberdade de Cuba, isto é, a anexação decretada por seu governo num volumoso e extenso texto.

No dia anterior, pela televisão internacional, foi mostrado um grupo de bombardeiros de última geração realizando manobras espetaculares, com a absoluta garantia de que, bombas de qualquer tipo, podem ser lançadas sem os radares detectarem os aviões portadores e sem sequer seja considerado crime de guerra.

Um protesto de importantes países se relacionava com a idéia imperial de testar uma arma, sob o pretexto de evitar a possível queda de um satélite espião, dos muitos artefatos que os Estados Unidos colocaram com fins militares na órbita do planeta, sobre o território de outro país .

Pensava não escrever uma reflexão pelo menos em 10 dias, mas não tinha direito de guardar silêncio tanto tempo. É preciso fazer fogo ideológico sobre eles.

Escrevi isto na terça-feira, às 15h35. Ontem o revi e hoje, quinta-feira, à tarde, o entregarei. Roguei que minhas reflexões fossem publicadas na página 2 ou em qualquer outra de nossos jornais, nunca na primeira, e fazer resumos simples nas outras mídias, se forem extensas.

Agora estou engajado em fazer constar meu voto unido na presidência da Assembléia Nacional e no novo Conselho de Estado, e em como fazê-lo.

Agradeço aos leitores sua paciência.

Fidel Castro Ruz21 de fevereiro de 2008

O Caminho é o da Luta Que Continua

Álvaro Cunhal

08 de Dezembro de 1996


Primeira Edição: Intervenção de Álvaro Cunhal, membro do Comitê Central, durante a realização do XV Congresso do Partido Comunista Português, na cidade do Porto, de 6 a 8 de dezembro de 1996. Fonte: Portal Vermelho. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, dezembro 2007.


Somos o partido da classe operária e de todos os trabalhadores, porque no chamado “capitalismo civilizado” a luta de classes continua

O nosso XV Congresso constitui uma sólida afirmação de que o Partido Comunista Português (PCP) é do presente e do que se propõe ser no futuro. Temos consciência de que a luta dos trabalhadores e do povo de Portugal, assim como a luta dos povos de todo o mundo, defrontam nesse findar do século XX gravíssimos problemas, uma situação complexa e um difícil e acidentado caminho. O nosso Congresso não traça nem aponta, porém, uma visão pessimista do futuro. Aponta confiante uma perspectiva e um caminho para ultrapassar a situação atual. O caminho é o da luta que continua. E o nosso Partido, para corresponder às exigências que a situação imediata e futura comporta, contrariando pressões e desejos para deixar de ser o que é, confirma e afirma, corajoso e confiante, a sua identidade comunista.

Objetivo central: uma viragem democrática

Em Portugal não só se atravessa uma situação particularmente grave como poderá ter desenvolvimentos ainda mais agravantes, se o povo português não puser fim à política da direita desenvolvida pelo governo do PS e PSD em conjunto preparam contra o povo, contra o país, contra a democracia, contra os interesses nacionais. Já ninguém contesta que o voto no PS traduziu a esperança numa mudança. O PS enganou o eleitorado, e o eleitorado que tinha tal esperança enganou-se de votar no PS. Têm razão aqueles que dizem que a política de direita com o Governo PS é ainda mais perigosa do que a do Governo PSD com Cavaco. Primeiro pelo fato do PS se afirmar um partido de esquerda. Depois pelo “novo estilo”do Primeiro Ministro que sorridente e mediático convida ao diálogo. . . Embora tapando previamente os ouvidos. PS e PSD oferecem o carnavalesco espetáculo de exaltadas batalhas verbais, de desacordos, de ultimatos de fim de semana como o dedo no gatilho de pistolas de alarme. Com o estrondo imediático da farsa, procuram esconder a real identidade das suas políticas e os entendimentos já estabelecidos ou em vias de se estabelecerem. Um e outro estão a serviço dos grandes grupos econômicos. Um e outro defendem a liquidação de direitos vitais dos trabalhadores. Um e ouro fomentam a acumulação de riqueza para uns e o alastramento de desemprego e da miséria. Um e outro são responsáveis pela destruição da nossa agricultura, da nossa indústria, das nossas pescas. Um e outro defendem a irresponsável corrida para a Moeda Única que, longe de evitar a marginalização de Portugal agravará ainda mais a posição de Portugal como país periférico, marginalizado, submetido e submisso às imposições da União Européia e dos Estados Unidos. É, porque são cúmplices na política, são também cúmplices na proteção recíproca dos abusos, das ilegalidades, da corrupção nas mais altas esferas do poder, procurando paralisar e desautorizar o Ministério Público, os Tribunais, e a sua independência. E um novo perigo aí está. A “reforma do regime político”com o qual o PS e PSD visam institucionalizar, através da revisão da Constituição e de leis eleitorais antidemocrática, a partilha do poder entre os dois partidos num sistema de alternância, ora um, ora outro, disputando o poder mas, qualquer deles, a serviço do grande capital. Esta política não serve nem ao povo nem ao país. Prosseguindo conduzirá a um verdadeiro desastre nacional. É imperioso lutar para pôr-lhe fim e assegurar um Novo Rumo para Portugal. Os trabalhadores, o povo, a democracia e Portugal precisam de um governo democrático com uma política democrática, precisam de um governo patriótico que, ao contrário do atual, que se põe de joelhos ou de cócoras na União Européia e nas relações com os Estados Unidos, esteja de pé na cena internacional defendendo com brio, dignidade e coragem os interesses portugueses. Mentem os que propagandeiam que não existe qualquer política capaz de resolver os problemas do povo e do país. Por mais que PS e PSD queiram impedir que o povo a conheça, tal política existe. O nosso XV Congresso aqui está para confirmá-la. E a política que o PCP propõe ao povo português e da qual os documentos do Congresso indicam as linhas fundamentais. A vida tem demonstrado e setores cada vez mais amplos da população reconhecem que mesmo na oposição o PCP é um partido insubstituível, necessário, indispensável ao povo, à democracia, a Portugal. E a vida tem mostrado mais. Tem mostrado ano após ano que, sem o PCP, e muito menos contra o PCP não é possível pôr fim à política de direita e alcançar uma viragem democrática na política nacional. E cabe acrescentar ainda algumas palavras sobre essa matéria. Tal como nas autarquias, os comunistas têm demonstrado sua superior capacidade de dirigir o poder local democrático, tal como na Assembléia da República e no Parlamento Europeu, os comunistas têm mostrado a sua superior competência para apresentar soluções para problemas. Também no que respeita ao governo, no dia em que o povo o quiser, repito, no dia em que o povo quiser, e esse dia chegará, os comunistas estarão preparados e inteiramente capazes de assumir as mais altas responsabilidades.

A luta: o caminho

Põe-se então uma questão: que os partidos até hoje mais votados – PS e PSD – se identificaram e se entendem na realização da política de direita, não será ilusório pensar que é possível a viragem democrática que o PCP defende? A nossa resposta é clara: a derrota da política de direita e uma viragem democrática é não só necessária mas possível. Recorde-se que também era opinião muito generalizada não ser possível correr do Governo do PSD e de Cavaco e Silva. O nosso Partido confiou na luta, teve papel determinante na grande movimentação das massas, isolamento social e político do governo, e finalmente na sua derrota eleitoral. Assim como foi possível com a luta conduzir à derrota o governo PSD, assim é possível com a luta conduzir à derrota o governo PS. A verborréia demagógica não será bastante para convencer o povo. Dadas as conseqüências desastrosas da sua política, o governo PS defrontará inevitavelmente uma crescente onda de luta popular, sofrerá a redução de sua base de apoio social e político, ficará, tal como o governo de Cavaco, cada vez mais isolado e acabará finalmente por ser derrotado nas urnas. . . Se o não for antes. Impulsionar, desenvolver, dinamizar a luta co esse objetivo é (como o nosso XV Congresso está a definir) a nossa tarefa política central na atual situação. Intensificar as iniciativas dos nossos eleitos na Assembléia da República, nas Autarquias, no Parlamento Europeu. Preparar desde já a grande batalha das eleições autárquicas de 1997. E (como direção determinante) promover a luta dos trabalhadores, dos agricultores, dos intelectuais, e quadros técnicos, dos pequenos e médios empresários, dos reformados, dos deficientes, da juventude, das mulheres, dos mais variados setores sociais atingidos pela política de direita. Contribuir para reforçar, dinamizar os movimentos e organizações unitárias de massas com relevo para movimentos e organizações unitárias de massas com relevo para o movimento sindical unitário. Reforçar e ampliar os laços de cooperação e ação com todos os setores democráticos empenhados numa viragem democrática. Nenhum outro partido respeita mais rigorosamente a legalidade democrática seja nas instituições seja nas mais diversas formas de luta popular. E bem podem acusar de “subversivo” ou de agitação” o exercício de liberdades e direitos de manifestação, de reunião, de organização, de opinião. Bem pode esta ou aquela autoridade pretender, como recentemente se viu em Lisboa, impor a proibição de manifestações de rua que, como se sabe, devem ser comunicadas, mas não carecem de qualquer autorização. Ninguém espere que o nosso Partido peça autorização para exercer os direitos e liberdades que a legalidade democrática lhe confere. O nosso XV Congresso confirma que o nosso Partido não aceita nem aceitará renunciar as taxas direitos e liberdades, a separar-se das massas, lembrando mais que, nenhuma democracia e no futuro, ‘’e o povo quem mais ordena”. Temos constantemente lutado no terreno em que a direita nos quer fixar como terreno exclusivo do confronto político. Terreno da mentira, da calúnia, de campanhas obrigando constantemente a desmentidos e desviando as atenções das realidades e conseqüências da política de direita. Cada vez mais temos que obrigar a direita a travar o confronto no nosso próprio terreno. O terreno da verdade dos fatos. Da explicação dos fenômenos e atitudes. Do conhecimento e difusão das reais situações. Dos interesses concretos dos trabalhadores, do povo e do país. Das soluções que propomos. Da ligação estreita e atuante com as massas populares, com os seus interesses, problemas e aspirações. No terreno escolhido pela direita somos muitas vezes obrigados a uma posição defensiva. No nosso terreno, passando à ofensiva e colocando a direita em posições desfavoráveis, temos alcançado e podemos continuar a alcançar êxitos consideráveis. É um caminho que exige respostas prontas. Com objetivos imediatos a curto e a médio prazo. São direções e dinâmicas variadas que comportam, além dos seus objetivos específicos, a difícil tarefa de transformar o apoio social e mesmo o apoio político em apoio eleitoral. Já no próximo ano teremos as eleições autárquicas. Será uma grande batalha. Os seus resultados terão profundas repercussões na evolução ulterior da situação. Travaremos essa batalha com a nossa forma própria de estar na sociedade: o falar sempre a verdade para o povo, o prometer para cumprir e cumprir o que promete. Com esse objetivo concentramos forças, energias, capacidades e recursos. Não apenas para manter posições, mas para reforçá-las. Temos força, influência e determinação bastante para consegui-lo.

O futuro: o socialismo

A tarefa política central na situação presente é a luta por uma viragem democrática. Mas o nosso horizonte e a nossa perspectiva são mais largos. A luta por soluções a curto prazo e a médio prazo não contradiz, antes, é um elemento constitutivo da luta por uma sociedade libertada da exploração do homem pelo homem, das grandes desigualdades e injustiças sociais dos terríveis flagelos do capitalismo. Combatemos as concepções, campanhas, tendência e teorizações que visam criar a idéia de que o capitalismo é um sistema superior e final, de que a desagregação da União Soviética mostra o fim de uma utopia e o fracasso e a inviabilidade do socialismo. A realidade mundial e a realidade nos países capitalistas está mostrando que o capitalismo, pela sua própria natureza exploradora, opressora e agressiva, não só se mostra incapaz de resolver os mais graves problemas da humanidade, como está agravando, no quadro das insanáveis contradições que se aprofundam na crise geral do sistema. É inevitável um recrudescimento da luta dos trabalhadores, um novo ascenso das lutas revolucionárias, novos movimentos de libertação social, política, cultural e nacional, revigoramento do movimento comunista e revolucionário mundial, novas revoluções socialistas, tendo como objetivo fundamental a construção de uma sociedade melhor, uma sociedade socialista. Em todo o mundo, a luta por tal objetivo recebeu inspiração, força e confiança na Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, cujas realizações, conquistas e experiências, e cuja influência no desenvolvimento e vitórias da luta libertadora dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo, é incontestável. Continuamos a considerar a Revolução de Outubro e a construção do socialismo na União Soviética como fazendo parte do patrimônio e experiência histórica de valor universal. Ao longo do século XX multiplicaram-se revoluções socialistas e nacional-libertadoras. As experiências diversificaram-se. Alcançando grandes vitórias e grandes conquistas para os trabalhadores e para os povos. Ruiu o sistema colonial. Mas o processo universal, que parecia progressivo e ininterrupto, sofreu grandes derrotas e foi obrigado a consideráveis recuos. Por um lado porque o capitalismo mostrou potencialidades que haviam sido menosprezadas. Por outro lado, porque se verificaram fenômenos e evoluções em países socialistas, contrariando objetivos fundamentais sempre proclamados pelos comunistas. Aprendendo com a experiência, o nosso Partido definiu o seu próprio projeto de uma sociedade socialista para Portugal cujas linhas gerais o nosso Congresso confirma. A nossa própria experiência das conquistas de Abril mostra, porém, que num processo revolucionário, a intervenção determinante e criativa das massas populares introduz elementos novos e corretos de projeto inicial. Seria absurdo pensar para a superação do sistema sócio-econômico do capitalismo existe um “modelo” de processo revolucionário e um “modelo” de sociedade socialista de aplicação e validade universal. O capitalismo demorou séculos para tornar-se um sistema mundial e teve pelo mundo as mais variadas formas de economia mista e as mais variadas formas de regimes políticos. É imprevisível (as experiências do XX reforçam a previsão) que o socialismo e o comunismo venham a ter um percurso histórico igualmente irregular e desigual nos caminhos e nas soluções. Esta visão da história é, a nosso ver, necessária para a compreensão das experiências passadas e para melhor ajuizar das experiências presentes e das revoluções socialistas do futuro. Um dos traços da situação mundial presente é violenta e brutal ofensiva do imperialismo (intervenções militares, guerras declaradas e não declaradas, bloqueios econômicos, pressões diplomáticas, estrangulamentos financeiros, ações de terrorismo de Estado) para restabelecer e conseguir estabilizar sua hegemonia mundial e impedir o novo surto que consideramos inevitável na luta revolucionária dos trabalhadores e do povo. O imperialismo apóia ferozes ditaduras e regimes autoritários, tudo faz para sufocar e dividir o movimento operário, liquidar os movimentos sindicais de classe, dividir e abafar as forças progressistas, liquidar, perverter ou reduzir a uma insignificante influência os partidos comunistas, colocando fim, se pudessem, ao movimento comunista internacional e a perspectiva do seu novo desenvolvimento co outras forças revolucionárias. E também, com caráter estratégico tentar cercar, abafar, criar condições para restaurar o capitalismo e impor com seu domínio em países que (com soluções diversas) insistem em definir com sua orientação e seu projeto a construção de uma sociedade socialista. As forças do imperialismo atingem um cinismo sem limites. Ao mesmo tempo que apóiam os mais sanguinários governos facetas e autocráticos e que nos seus países abafam as liberdades e a democracia e desrespeitam elementares direitos humanos, invocam a democracia e os direitos humanos para desencadear colossais campanhas e agressões contra outros paises. O projeto e proposta de nosso Partido de uma sociedade socialista para Portugal diferencia-se em muitos aspectos da construção do socialismo proposto ou em curso em outros países. O XV Congresso confirma, porém, a nossa frontal recusa em participar nas campanhas do imperialismo e a nossa determinação em aprofundar e reforçar os laços de cooperação, solidariedade recíproca e amizade com os partidos comunistas e revolucionários, com os trabalhadores e com o movimento operário, com as forças progressistas, com os partidos no poder que insistem no objetivo de construir o socialismo nos seus países. Eles aqui estão representados no nosso Congresso, e aqui os saudamos fraternalmente, assim como saudamos as delegações de partido comunistas, de outros partidos revolucionários e progressistas, e de organizações e movimentos sociais. A situação mundial impõe cada vez mais a compreensão, a solidariedade recíproca, ações comuns ou convergentes na luta contra o imperialismo. O nosso XV Congresso confirma que o PCP continuará a dar a sua contribuição com esses tão imperiosos objetivos.

Renovação comunista

A renovação é um processo contínuo da história de um Partido que, como o nosso, tem 75 anos de existência de luta. Deu passos mais rápidos nos últimos três congressos. Dá novos passos neste nosso XV. Renovação é um conceito muito vasto que envolve aspectos diversos. Para o nosso Partido na hora presente é antes de mais o rejuvenescimento. Das fileiras e dos quadros. É enrijecer os efetivos com milhares de jovens que vêm ao Partido e a Juventude do PCP (JCP). É enriquecer o Partido com quadros jovens que assumem novas responsabilidades em todos os níveis da organização. É também ultrapassar discriminações e preconceitos, e conseguir cada vez mais mulheres venham ao Partido e atribuir a elas mais responsabilidades, porque é preciso que se ganhe firme consciência de que as mulheres são tão capazes como os homens de assumir quaisquer responsabilidades e funções na sociedade e no Partido. Renovar não é substituir por substituir. Não pode significar a adoção de critérios rígidos que levem a soluções não vantajosas para o Partido e injustas para os quadros valiosos. Exigem que se precedam as decisões de consultas fraternas dos próprios e dos camaradas que com eles trabalham. Que o respeito político seja também respeito humano. E que seja mais aberto no reconhecimento de deficiências e erros coletivos e individuais. Renovação é também por parte de quadros dirigentes mais idosos, e muitos são, após dezenas de anos de provas exemplares de capacidade, coragem e heroísmo, a compreensão da necessidade de dar lugar a quadros mais jovens, com novas experiências e mais largo futuro, ao mesmo tempo que eles próprios continuam e continuarão, como comunistas que são a militar ativamente, sempre com o Partido, com os trabalhadores, com o povo a que pertencem, com o qual sempre viveram e sempre lutaram e com o qual viverão e lutarão até ao fim dos seus dias. Renovar não é apenas rejuvenescer as fileiras e os quadros. É também dar respostas novas as novas situações, aos novos acontecimento, é ter em conta as mudanças, é proceder constantemente à análise da realidades, é encontrar os métodos e formas de organização, de comunicação, de propaganda, de intervenção e de luta adequadas as exigências de situações concretas. Mas que se desiludam os que gostariam que a renovação do PCP significasse uma mutação da sua identidade. A renovação no PCP é uma renovação comunista. Dá-se não para que o PCP deixe de ser o partido comunista que é, mas para que possa continuar a ser. Não apenas nos tempos próximos, mas num largo futuro. O grande coletivo partidário, a levada consciência de classes das organizações militantes,é a melhor garantia de que as conclusões, orientações, princípios ideológicos, linhas de ação, traços fundamentais da identidade do Partido definidos neste XV Congresso, serão assegurados tanto na ação imediata como no futuro.

A identidade do PCP

Todos nós lembramos da peremptória proclamação de Mario Soares, repetindo uma consigna mundial dos ideólogos do capitalismo, de que o comunismo tinha morrido e de que o PCP estava também condenado à morte próxima. Todos nós lembramos das pressões e das tentativas e ameaças de exclusão institucional para que o PCP desistisse de ser comunista. Afinal vê-se que ser comunista, em vez de morte, dá vida. Que afinal o PCP está vivo, forte e cheio de saúde. E que está unido em contraste com os outros partidos agitado por conflitos, rivalidades e bagunças internas. Que está dinâmico e ligado às massas. E que, desmentindo os bruxos da nossa praça, em vez de diminuir está aumentando sua força, a sua influência, o seu prestígio. A que se deve essa realidade para a qual não encontram explicação os que anunciavam a morte próxima do PCP? Deve-se, em medida decisiva, ao fato do PCP reafirmar e afirmar criativamente a sua identidade comunista. A definição da identidade comunista que consta na proposta da Resolução Política não é apenas um ponto entre dezenas de outros pontos da Resolução. Não é uma definição conjuntural. É uma definição essencial, fundamental, determinante de todas as decisões e orientações políticas, ideológicas, orgânicas, de quadros, de distribuição de forças, de dinâmica de ação, de ligação com o povo, de alianças sociais e de unidade com outras forças políticas. Somos o partido da classe operária e de todos os trabalhadores, porque no chamado “capitalismo civilizado” a luta de classes continua e, apesar das alterações da composição da classe operária e da própria composição social da sociedade, a classe operária e os trabalhadores continuam a ter necessidade de um partido independente dos interesses, pressões e ideologia do grande capitalismo Necessidade tanto maior quanto é certo que, partidos e organizações corporativas, ideológicas e propagandistas do grande capital, pressionam para que os trabalhadores desistam de ter o seu partido e os seus sindicatos de classe e aceitem transformar as suas organizações políticas profissionais em organização de “cidadãos”. Nós comunistas defendemos os direitos dos cidadãos. Vivemos numa sociedade na qual há classes sociais que exploram outras classes sociais que são exploradas, que a luta de classes é uma realidade objetiva e a política de classe do Governo outra realidade objetiva. O PCP não é, por exemplo, o defensor dos interesses dos cidadãos Espírito Santo, Champalimaud e Mellos contra os cidadãos operários e outros trabalhadores, mas o defensor dos cidadãos operários e outros trabalhadores contra os seus exploradores – os cidadãos Espírito Santo, Champalimaud, Mellos e outros tais. Somos um partido que, aprendendo com a vida, com a experiência, com as vitórias e derrotas, insiste no objetivo, que o caracteriza e distingue, de construção em Portugal de uma sociedade onde se elimine a exploração do homem pelo homem, uma sociedade socialista, o que exige combatermos a ofensiva ideológica do capitalismo, que pretende demonstrar que o capitalismo se tornou um sistema civilizado superior e final. Somos um partido portador de uma teoria revolucionária que inspirou os comunistas e outras forças revolucionarias ao longo do século XX, o marxismo-leninismo, teoria que não só explica o mundo como indica como transformá-lo, ao contrário do chamado “pensamento único” e o chamado “fim das ideologias” com que as forças do capital pretendem impor sua visão de classe e sua ideologia. Somos um partido com ímpar democracia na vida interna, com os grandes valores do trabalho coletivo, da direção coletiva, da participação efetiva dos militantes nas decisões e não a falsa democracia de outros partidos em que, depois de uma luta de galos pelo poder, o chefe é quem pensa, o chefe é quem decide, o chefe é quem manda, aos militantes resta o papel passivo de apoiar ou não apoiar, de votar a favor ou contra. Democracia interna que significa serem características da vida partidária os direitos dos militantes de defender livremente suas opiniões, de criticarem, de serem consultados quando a consulta é obrigatória, de serem respeitada, de não sofrerem injustiças e imposições autoritária. Somos um partido simultaneamente patriótico, defensor desde sempre dos interesses nacionais e da soberania e independência nacionais, e um partido internacionalista, que tem, como princípio e prática, a ativa solidariedade para com os trabalhadores, os povos em luta pelos seus justos direitos, para com as forças políticas e sociais em luta contra o imperialismo. As campanhas, as mentiras, as calúnias, as intrigas, as falsificações da história as pressões ideológicas e políticas continuam e vão continuar. O nosso XV Congresso dá a resposta ao que elas têm sido e prepara a resposta ao que presumivelmente elas continuarão a ser. O PCP é um grande coletivo militante, com vontade própria e poder de decisão. Tal como esse grande coletivo combateu no passado e combate hoje todas as pressões, campanhas, para deixar de ser o que é quer ser, assim combaterá com a firmeza comunista, com a convicção comunista, com a coragem comunista, quaisquer novas pressões, ameaças e campanhas que as forças do capital e seus partidos, propagandistas e agentes continuarão certamente a desenvolver. Aqui no nosso XV congresso, brilha a bandeira vermelha que, segundo a canção, já na Idade Média era símbolo dos exploradores em luta com os opressores. Brilham a foice e o martelo, símbolo histórico da aliança do proletariado com o campesinato. Ouvimos a Internacional, símbolo da solidariedade internacionalista dos comunistas e dos trabalhadores em geral. Aqui no nosso XV Congresso está presente, nos conceitos, nas orientações, nas decisões, o patrimônio de luta e dos objetivos pelos quais os comunistas lutaram ao longo dos 75 anos de luta do seu Partido. Dando respostas novas com espírito criativo, antidogmático, ás novas situações, fenômenos, mudanças, exigências de vida, o XV Congresso está confirmando e afirmando o PCP como partido revolucionário que sempre foi, como um grande, fraterno e unido coletivo de homens, mulheres e jovens, livres e participantes, empenhados na luta pelos objetivos e ideais comunistas pelos quais, como a vida confirma, vale a pena lutar.

A Filosofia Como Uma

Arma Revolucionária

Louis Althusser

Fevereiro de 1968


Primeira Edição: Entrevista concedida a Maria Antonietta Macciocchi e publicada em L’Unità, Fevereiro de 1968. Fonte: Tradução para o inglês publicada na New Left Review em 1971. Tradução: Gabriel Zerbetto Vera, Maio 2007, a partir do texto em inglês existente no Marxists Internet Archive. HTML: Fernando A. S. Araújo, Maio 2007. Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


1 Você poderia nos contar um pouco sobre sua história pessoal? O que o trouxe à filosofia marxista?

Em 1948, quando eu tinha 30 anos, me tornei professor de filosofia e me filiei ao PCF [Partido Comunista Francês]. A filosofia era um interesse, eu buscava fazer dela minha profissão. A política era uma paixão, eu almejava ser um militante comunista.

Meu interesse pela filosofia foi motivado pelo materialismo e sua função crítica: o conhecimento científico, contra todas as mistificações do “conhecimento” ideológico. Contra o mero denuncismo moral de mitos e mentiras, por suas críticas racionais e rigorosas. Minha paixão pela política foi inspirada pelo instinto revolucionário, inteligência, coragem e heroísmo da classe operária em sua luta pelo socialismo. A Guerra e os longos anos em cativeiro me propiciaram um vívido contato com operários e camponeses e fui apresentado aos militantes comunistas.

Foi a política que decidiu tudo. Não a política em geral: a política marxista-leninista.

Primeiro tive que encontrá-las e entendê-las. Isso é sempre dificílimo para um intelectual. E foi difícil assim nos anos 50 e 60, pelos motivos que você sabe bem: as conseqüências do “culto”, o Vigésimo Congresso, depois a crise do movimento comunista internacional. Acima de tudo, não foi fácil resistir à propagação da ideologia “humanista” contemporânea e aos outros ataques da ideologia burguesa ao marxismo.

Uma vez que atingi um melhor entendimento da política marxista-leninista, comecei a me apaixonar pela filosofia também, e conseqüentemente passei a entender a grande idéia de Marx, Lênin e Gramsci: a de que a filosofia é fundamentalmente política.

Tudo que escrevi – primeiro sozinho, depois em companhia de camaradas e amigos mais jovens – gira, apesar da “abstração” de nossos ensaios, em torno dessas questões bastante concretas.

2 Você poderia ser mais preciso: por que em geral é tão difícil ser um comunista na filosofia?

Ser um comunista na filosofia é tornar-se partidário e perito na filosofia marxista-leninista, a do materialismo dialético.

Não é fácil ser um filósofo marxista-leninista. Como todo “intelectual”, o professor de filosofia é um pequeno burguês. Quando ele abre a boca, sua ideologia pequeno-burguesa fala: seus truques e espertezas são infinitos.

Você sabe o que Lênin diz dos “intelectuais”. Individualmente, alguns deles poderiam (politicamente) ser considerados revolucionários e corajosos. Mas no conjunto eles permanecem sendo pequeno-burgueses “incorrigíveis” na ideologia. O próprio Gorki era, para Lênin (que admirava seus talentos), um revolucionário pequeno-burguês. Para se tornarem “ideólogos da classe operária” (Lênin), “intelectuais orgânicos” do proletariado (Gramsci), os intelectuais devem atingir uma revolução radical em suas idéias: uma longa, dolorosa e difícil re-educação. Uma interminável luta exterior e interior.

Os proletários têm um “instinto de classe” que os ajuda a alcançar “posições de classe” proletárias. Os intelectuais, por outro lado, têm um instinto de classe pequeno-burguês que se opõe ferozmente a essa transição.

Uma posição de classe proletária é mais do que um mero “instinto de classe” proletário. É a consciência e a prática que estão de acordo com a realidade objetiva da luta de classe proletária. O instinto de classe é subjetivo e espontâneo. A posição de classe é objetiva e racional. Para atingir as posturas de classe proletárias, o instinto de classe dos proletários necessita apenas ser educado; o instinto de classe dos pequeno-burgueses (e, logo, dos intelectuais) necessita, por outro lado, ser revolucionado. Essa educação e essa revolução são, em última análise, determinadas pela luta de classe proletária conduzida desde a base pelos princípios da teoria marxista-leninista.

Como diz o Manifesto Comunista, o conhecimento dessa teoria pode ajudar certos intelectuais a atingirem posições da classe operária.

A teoria marxista-leninista abrange uma ciência (o materialismo histórico) e uma filosofia (o materialismo dialético).

A filosofia marxista-leninista é, portanto, uma das duas armas teóricas indispensáveis para a luta de classe do proletariado. Os militantes comunistas devem assimilar e aplicar os princípios da teoria: ciência e filosofia. A revolução proletária precisa de militantes que são tanto cientistas (materialistas históricos) quanto filósofos (materialistas dialéticos) para auxiliar na defesa e no desenvolvimento da teoria.

A formação desses filósofos vai de encontro a duas grandes dificuldades.

Primeiro, a dificuldade política. O filósofo profissional que se junte ao Partido continua sendo, ideologicamente, um pequeno burguês. Ele deve revolucionar seu pensamento de forma a ocupar uma posição de classe proletária na filosofia.

Essa dificuldade política é “determinante em último caso”.

A segunda é a dificuldade teórica. Nós sabemos com que direcionamento e com quais princípios devemos trabalhar a fim de definir essa posição de classe na filosofia. Mas devemos desenvolver a filosofia marxista: é teórica e politicamente urgente fazer isso. Agora, esse trabalho é vasto e difícil. Dentro da teoria marxista, a filosofia ficou para trás da ciência da história.

Atualmente, em nossos países, essa é a dificuldade “dominante”.

3 Então você distingue uma ciência e uma filosofia dentro da teoria marxista? Como você sabe, essa distinção é bastante contestada atualmente.

Eu sei. Mas essa “contestação” é uma velha história.

Para ser extremamente esquemático, pode-se dizer que, na história do movimento marxista, a supressão dessa distinção expressou um desvio tanto direitista quanto esquerdista. O desvio direitista suprime a filosofia: resta apenas a ciência (positivismo). O desvio esquerdista suprime a ciência: resta apenas a filosofia (subjetivismo). Existem exceções a isso (casos de “inversão”), mas elas “confirmam” a regra.

Os grandes líderes do movimento operário marxista, de Marx e Engels até hoje, sempre disseram que esses desvios são resultado da influência e dominação da ideologia burguesa sobre o marxismo. Da parte deles, eles sempre defenderam a distinção (ciência, filosofia), não apenas por razões teóricas, mas por razões vitais políticas também. Pense no Lênin em Marxismo e Empírio-criticismo ou em Esquerdismo – Doença Infantil do Comunismo. Suas razões são claramente óbvias.

4 Como você justifica essa distinção entre ciência e filosofia na teoria marxista?

Responderei a essa pergunta formulando algumas questões provisórias e esquemáticas.

1. A fusão da teoria marxista com o movimento operário é o evento mais importante de toda a história da luta de classes, ou seja, de praticamente toda a história da humanidade (os primeiros efeitos foram as revoluções socialistas).

2. A teoria marxista (ciência e filosofia) representa uma revolução sem precedentes na história do conhecimento humano.

3. Marx fundou uma nova ciência: a ciência da história. Vou ilustrar isso. As ciências com as quais somos familiares têm seus alicerces em alguns “continentes”. Antes de Marx, dois desses continentes haviam sido abertos ao conhecimento científico: o continente da matemática e o continente da física. O primeiro pelos gregos (Tales), o segundo por Galileu. Marx abriu um terceiro continente ao conhecimento científico: o continente da história.

4. A abertura desse novo continente levou a uma revolução na filosofia. Essa é uma regra: a filosofia está sempre ligada às ciências.

A filosofia nasceu (com Platão) quando o continente da matemática foi aberto. Ela foi transformada (com Descartes) pela abertura do continente da física. Hoje em dia, ela está sendo revolucionada com a abertura do continente da história por Marx. Essa revolução é chamada materialismo dialético.

As transformações da filosofia são sempre reverberações de grandes descobertas científicas. Portanto, em essência, elas nascem após esses eventos. É por isso que a filosofia ficou para trás da ciência na teoria marxista. Existem outras razões que todos nós conhecemos, mas hoje essa é a dominante.

5. Como conjunto, apenas os militantes proletários reconheceram o âmbito revolucionário da descoberta científica de Marx. Sua prática política foi transformada por ela.

E aqui chegamos ao maior escândalo teórico da história contemporânea.

Como conjunto, os intelectuais, por outro lado — mesmo os que têm um interesse “profissional” no assunto (especialistas em ciências humanas, filósofos) —, não reconheceram ou se recusam a reconhecer o âmbito sem precedentes da descoberta científica de Marx, esta que eles condenam e desprezam e que eles distorcem quando discutem a seu respeito.

Com poucas exceções, eles ainda estão “engatinhando” na economia política, sociologia, etnologia, “antropologia”, “psicologia social”, etc., etc. Mesmo hoje, cem anos após o Capital , assim como os físicos aristotélicos estavam “engatinhando” na física, cinqüenta anos depois de Galileu. Suas “teorias” são anacronismos ideológicos, rejuvenescidos por uma grande dose de sutilezas intelectuais e técnicas matemáticas ultramodernas.

Mas esse escândalo teórico não é um de todo um escândalo. É um efeito da luta de classe ideológica: pois é a ideologia burguesa, a “cultura” burguesa que está no poder, que exerce uma “hegemonia”. Como conjunto, os intelectuais, incluindo muitos intelectuais comunistas e marxistas, são – com exceções – dominados em suas teorias pela ideologia burguesa. Com exceções, o mesmo acontece nas ciências “humanas”.

6. A mesma situação escandalosa aparece na filosofia. Quem compreendeu a incrível revolução filosófica provocada pela descoberta de Marx? Apenas os líderes e militantes proletários. Por outro lado, os filósofos profissionais, como conjunto, nem sequer se deram conta dela. Quando eles mencionam Marx, isso sempre ocorre (com raríssimas exceções) com o intuito de atacá-lo, condená-lo, “absorvê-lo”, explorá-lo e revisá-lo.

Aqueles que defenderam a dialética materialista, como Engels e Lênin, são tratados como filosoficamente insignificantes. O verdadeiro escândalo é que certos filósofos marxistas sucumbiram ante a mesma infecção, em nome do “anti-dogmatismo”. Mas aqui também a razão é a mesma: o efeito da luta de classe ideológica. Pois é a ideologia burguesa, a “cultura” burguesa, que está no poder.

7. As tarefas cruciais do movimento comunista, em teoria:

– Identificar e conhecer o âmbito teórico revolucionário da ciência e da filosofia marxista-leninista;

— Lutar contra a visão de mundo burguesa e pequeno-burguesa que sempre ameaçou a teoria marxista e que a permeia profundamente hoje em dia. A forma geral dessa visão de mundo é o economismo (hoje “tecnocracia”), e seu “complemento espiritual”, o idealismo ético (hoje “humanismo”). O economismo e o idealismo ético formaram a base opositora na visão de mundo burguesa desde as origens da burguesia. A atual forma filosófica dessa visão de mundo é o neo-positivismo e seu “complemento espiritual”, o subjetivismo existencialista-fenomenológico. A variante peculiar às Ciências Humanas é a ideologia chamada “estruturalismo”;

— Conquistar para a ciência a maioria das Ciências Humanas, acima de tudo as Ciências Sociais, que, com exceções, têm ocupado como impostoras o continente da história, o continente legado por Marx a nós;

— Desenvolver a nova ciência e filosofia com todo rigor e ousadia necessários, vinculando ambas aos requisitos e inventos da prática da luta de classe revolucionária.

Em teoria, a ligação decisiva na atualidade: a filosofia marxista-leninista.

5 Você disse duas coisas que são aparentemente contraditórias ou diferentes: primeiro, a filosofia é basicamente política; segundo, a filosofia está ligada às ciências. Como você explica essa dupla relação?

Aqui também terei de responder por meio de questões esquemáticas e provisórias.

1. As posições de classe em confronto na luta de classes são “representadas” no domínio das ideologias práticas (ideologias religiosas, éticas, legais, políticas, estéticas) por visões de mundo de tendências antagônicas: idealistas (burguesas) e materialistas (proletárias). Todos desenvolvem espontaneamente uma visão de mundo.

2. As visões de mundo são representadas no domínio da teoria (ciência + as ideologias “teóricas” que envolvem a ciência e os cientistas) pela filosofia. A filosofia representa a luta de classes na teoria. É por isso que a filosofia é uma luta (Kampf, como disse Kant) e fundamentalmente uma luta política: uma luta de classes. Ninguém é um filósofo por natureza, mas todos podem ser filósofos.

3. A filosofia surge logo que o domínio teórico aparece, logo que uma ciência (num sentido estrito) nasce. Sem a ciência não há filosofia, apenas visões de mundo. A aposta na batalha e o campo de batalha devem ser distinguidos. A aposta definitiva da luta filosófica é a luta pela hegemonia entre as duas grandes tendências de visão de mundo (materialista e idealista). O principal campo de batalha dessa luta é o conhecimento científico: contra ou a favor dele. Deste modo, a batalha filosófica mais importante ocorre na fronteira entre o conhecimento científico e o ideológico. Lá, as filosofias idealistas que depredam a ciência lutam contra as filosofias materialistas que servem às ciências. A luta filosófica é uma esfera da luta de classes existente entre visões de mundo. No passado, o materialismo sempre foi dominado pelo idealismo.

4. A ciência fundada por Marx mudou toda a conjuntura do domínio teórico. É uma ciência nova: a ciência da história. Dessa forma, isso nos possibilitou conhecer, pela primeira vez, as visões de mundo que a filosofia representa na teoria; isso no permitiu entender a filosofia. Isso nos fornece recursos para mudar as visões de mundo (a luta de classe revolucionária guiada pelos princípios da teoria marxista). A filosofia é assim duplamente revolucionada. O materialismo mecanicista, “idealista historicamente”, se torna o materialismo dialético. O equilíbrio das forças é invertido: agora o materialismo pode dominar o idealismo na filosofia e, se as condições políticas estiverem concretizadas, pode também conduzir a luta de classe pela hegemonia entre as visões de mundo.

A filosofia marxista-leninista, ou o materialismo dialético, representa a luta de classe proletária na teoria. Com a união da teoria marxista e do movimento operário (a união definitiva entre teoria e prática) a filosofia é interrompida, como disse Marx, para “interpretar o mundo”. Torna-se uma arma para “mudá-lo”: a revolução.

6 São essas as razões que levaram você a dizer que é essencial ler o Capital hoje em dia?

Sim. É essencial ler e estudar o Capital.

— Para realmente entender, em todo seu âmbito e conseqüências científicas e filosóficas, o que o os militantes proletários há muito entendem na prática: o caráter revolucionário da teoria marxista.

— Para defender essa teoria de todas as interpretações burguesas e pequeno-burguesas, ou seja, revisões que ameaçam-na seriamente hoje, principalmente a oposição economismo/humanismo.

— Para desenvolver a teoria marxista e prover os conceitos científicos indispensáveis à análise da luta de classes contemporânea, em nossos países e mundo afora.

É essencial ler e estudar o Capital. Devo acrescentar que é necessário e essencial ler e estudar Lênin e todos os grandes textos, novos ou antigos, aos quais se devem a experiência da luta de classe do movimento operário internacional. É essencial estudar os textos práticos do movimento operário revolucionário em sua realidade, seus problemas e contradições: seu passado e, acima de tudo, sua história presente.

Atualmente, existem grandes recursos em nossos países para a luta de classe revolucionária. Mas eles devem ser buscados em suas fontes: as massas oprimidas. Eles não serão “descobertos” sem um vínculo direto com as massas e sem as armas da teoria marxista-leninista. As noções ideológicas burguesas de “sociedade industrial”, “neocapitalismo”, “nova classe trabalhadora”, “sociedade afluente”, “alienação” e tutti quanti são anti-científicas e antimarxistas: criadas para fazer frente aos revolucionários.

Finalmente, devo acrescentar um comentário, o mais importante de todos.

Para que alguém realmente entenda o que “lê” e estuda nessas obras teóricas, políticas e históricas deve-se vivenciar diretamente as duas realidades que de fato as determinam: a realidade da prática teórica (ciência, filosofia) em sua vida concreta e, também nesta, a realidade da prática da luta de classe revolucionária, em contato próximo às massas. Pois é a teoria que nos permite compreender as leis da história: não são os intelectuais nem os teóricos, mas as massas que fazem a história. É essencial aprender com a teoria – mas ao mesmo tempo é crucial aprender com as massas.

7 Você atribui uma grande importância ao rigor, inclusive a um vocabulário rigoroso. O que isso significa?

Uma simples expressão resume a função maior da prática filosófica: “traçar uma linha divisória” entre as idéias verdadeiras e as falsas, como disse Lênin.

Mas a mesma expressão resume uma das operações fundamentais que norteiam a prática da luta de classe: “traçar uma linha divisória” entre as classes antagônicas. Entre nossos amigos de classe e nossos inimigos de classe.

É a mesma expressão. A linha divisória teórica entre as idéias verdadeiras e as falsas. A linha divisória política entre o povo (o proletariado e seus aliados) e os inimigos do povo.

A filosofia representa a luta de classes na teoria. Em contrapartida, ela ajuda o povo a distinguir na teoria e em todas as outras idéias (políticas, éticas, estéticas, etc.) quais idéias são corretas e quais são erradas. A princípio, as idéias verdadeiras sempre servem ao povo; as idéias falsas sempre servem aos inimigos do povo.

Por que a filosofia batalha pelas palavras? As realidades da luta de classes são “representadas” pelas “idéias”, que são “representadas” pelas palavras. Na argumentação científica e filosófica, as palavras (conceitos, categorias) são “instrumentos” do conhecimento. Mas na luta política, ideológica e filosófica, as palavras são armas, explosivos ou tranqüilizantes e venenos. Às vezes, toda a luta de classe pode ser resumida a um confronto entre palavras. Certas palavras lutam entre si como inimigas. Outras palavras são raízes de uma ambigüidade: são a aposta em uma batalha decisiva, porém não resolvida.

Por exemplo: a luta comunista pela supressão das classes e por uma sociedade comunista, onde, um dia, todos os homens serão livres e irmãos. Entretanto, toda a tradição marxista clássica se recusou a considerar o marxismo como um humanismo. Por quê? Por a palavra humanismo ser, na prática (isso é, com base nos fatos), explorada por uma ideologia que a usa para brigar, ou seja, para obliterar aquela outra expressão verdadeira, vital ao proletariado: a luta de classes.

Outro exemplo: os revolucionários sabem que, em último caso, tudo dependerá, não das técnicas, armas, etc., mas dos militantes, com sua consciência de classe, sua devoção e sua coragem. Contudo, toda a tradição marxista se nega a dizer que é o “homem” que faz a história. Por quê? Por esta expressão ser na prática (com base nos fatos) explorada pela ideologia burguesa, que a utiliza para brigar, ou seja, para extinguir outra idéia legítima, vital ao proletariado: que são as massas que fazem a história.

Ao mesmo tempo, a filosofia — mesmo nos longos trabalhos onde ela se mostra abstrata e difícil — batalha pelas palavras: contra as palavras mentirosas, contra as palavras ambíguas, a favor das palavras corretas. Ela luta pelas “marcas de opinião”.

Lênin disse: “Apenas as pessoas incautas consideram as disputas factuais e a rígida diferenciação entre as marcas de opinião como inoportunas ou supérfluas. O destino da social-democracia russa nos muitos anos que hão de vir poderá depender do fortalecimento de uma ou outra “marca” (in Que fazer?).

A batalha filosófica pelas palavras é uma parte da luta política. A filosofia marxista-leninista só poderá concluir sua obra teórica abstrata, rigorosa e sistemática se ela lutar tanto pelas expressões fortemente “acadêmicas” (conceito, teoria, dialética, alienação, etc.) quanto pelas mais triviais (homem, massas, povo, luta de classe).


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