Entrevistas

Secretário de Abastecimento e Preços defende corte nos gastos correntes

Daniel Lima e Ivanir José Bortot
Repórteres da Agência Brasil

 

Brasília – Empréstimos bancários não estão pressionando o consumo, portanto, o governo não deve pensar em fixar as prestações dos financiamentos. Foi o que defendeu o secretário de Abastecimento e Preços do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, em entrevista exclusiva à Agência Brasil.

Ele disse que preocupante é o aumento da oferta de insumos básicos destinados à produção de bens duráveis pelas indústrias. Para Barbosa, o país tem hoje situação econômica suficientemente estável para absorver crises externas. Um cenário indesejável na economia internacional levaria à queda nos preços das commodities (bens primários comercializados em larga escala), redução no fluxo de ingresso de moeda estrangeira e conseqüente pressão sobre a taxa de câmbio. Mas isso traria reflexo sobre a inflação, não sobre o endividamento externo.

Diante disso, ele defende que o Banco Central seja cauteloso e conservador, ou seja, que espere um pouco mais para reduzir as taxas de juros. O setor público, disse Barbosa, deveria fazer um corte nos gastos correntes, que envolve despesas com pessoal e custeio, já na programação orçamentária que será anunciada em abril.

O governo teria, assim, como levar adiante a sua política de melhoria de renda com programas sociais e investimentos em infra-estrutura, o que, em contrapartida, contribuiria para ampliar os espaços na condução da política monetária. Leia a íntegra da entrevista concedida ontem (27).

Agência Brasil – Existe uma crítica em relação aos gastos do governo e à falta de recursos na economia. Como o senhor vê isso?
Nelson Barbosa –
Uma coisa é o nível do gasto, outra é a taxa de crescimento do gasto, debate que para uns está claro e para outros não está. Aumentamos as transferências de recursos para os programas sociais e elevamos o salário mínimo. Quando você está em um trabalho desse de transferência de renda, os gastos aumentam. Você parte do zero e coloca alguma coisa. Depois, você tem apenas que mantê-las. Então, o gasto daqui para frente é menor. A despesa corrente teve uma elevação em 2006, puxada pelo salário mínimo. Isso permitiu o aumento do consumo, que, por sua vez, estimulou o investimento e elevou o grau de utilização da capacidade produtiva das empresas. No caso das despesas com pessoal, o índice caiu para 4,3% do PIB [Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas no país] em 2004 e 2005. Depois, subiu para 4,6% em 2007 e agora passou a desacelerar. Por isso, o governo tem um projeto de lei de crescimento real de 2,5% sobre a folha de pagamento, que é vital para a estratégia das contas públicas.

ABr – Com a redução de gastos, não sobra mais espaço para afinar a política monetária, em um momento de pressão inflacionária?
Barbosa – Acho prudente que o governo segure seus gastos não só para que o Banco Central tenha mais espaço para a política monetária, mas para melhorar a qualidade do gasto: direcionar os recursos mais para o investimento do que para o gasto corrente. Isso vai ajudar na redução da dívida pública e fará com que o país cresça bem, por um longo tempo. É ter investimento crescendo mais do que a variação do PIB e elevando a capacidade produtiva. Assim, o consumo vai crescer de maneira compatível com a produção. Como temos um crescimento vegetativo da população de 1,4% e um PIB de 5% ao ano, indica que o consumo por habitante cresce a 3,6% ao ano.

ABr – O governo está pensando em limitar o crédito para conter o consumo?
Barbosa – O crescimento do consumo é efeito da variação do câmbio, do fim da CPMF [a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira}, do crescimento da massa salarial e da queda da taxa de juros, impacto já absorvido em grande parte. Na questão do crédito, o que houve foi informação truncada. O governo não quer limitar os números de prestações. As famílias sabem o que podem gastar, o BC tem mecanismos, junto com os bancos, para avaliar os riscos. Isso é uma decisão que o consumidor tem que ter para ele mesmo. Números divulgados anteontem [26] pelo Banco Central mostram que as taxas de inadimplência estão caindo. Não é um problema de “bolha de crédito”. Há o consumo de alguns bens crescendo, puxado pelos custos industriais, como o do minério de ferro. Por isso que a gente colocou meta de crescimento de 5% do PIB no PAC [o Programa de Aceleração do Crescimento]. Porque a gente acha isso compatível com a oferta de insumos básicos às indústrias e com a estabilidade da inflação.

ABr – Qual seria a relação adequada para o crédito bancário em relação ao PIB?
Barbosa – Hoje, as operações de crédito em geral estão em 34,9% do PIB. São 12% de pessoas físicas, 24,8% de pessoas jurídicas e recursos direcionados, como os do BNDES [ Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], de 10,2%. Do total de crédito, R$ 975 bilhões, só R$ 47 bilhões são de habitação. O processo não é equilibrado, vem em ondas: primeiro, ele causa impacto em um mercado, depois muda de patamar. Vai chegar uma época, se Deus quiser, que todo mundo vai ter o carro, o eletrodoméstico e chegar no crédito imobiliário. Na maioria dos países, o financiamento imobiliário está em primeiro lugar nas operações de crédito. Há muito espaço para crescimento do crédito, mas é importante lembrar que conseguimos acelerar o crescimento da economia, passando de 3,7 % para 5,4% do PIB.

ABr – O PAC foi planejado para acelerar o crescimento da economia e agora os senhores estão dizendo que devemos ir com calma porque o consumo está aumentando e que isso pode ter impacto na inflação.
Barbosa – O PAC tem por objetivo manter o crescimento em um patamar de 5%. O Brasil já teve surtos de crescimento no passado, que foram abortados por crises externas ou por alguma restrição doméstica. Então, nosso desafio não é desacelerar. Isso seria uma contradição com o PAC. Só que os desafios mudam, os de ontem, necessariamente, não são os de hoje. O que a gente precisa é manter o crescimento nesse nível com a estabilidade da inflação. Pelas projeções de crescimento de 4,5 a 5% em 2008 – e se for mantido o mesmo percentual em 2009 – é perfeitamente compatível com o cumprimento das metas de inflação.

ABr – Então, onde está a dificuldade que pode levar a um desequilíbrio na condução da política econômica?
Barbosa – O que está acontecendo é que nós estamos lidando com os problemas – se é que podem ser chamados assim – de aceleração do crescimento. Em nenhum lugar do mundo, isso é um processo equilibrado. Evidentemente que os economistas nos seus estudos definem o ponto de equilíbrio como referência para avaliar a política. Mas, na prática, esse processo não é equilibrado: seja na China , no Brasil, nos Estados Unidos. É natural que você tenha alguns pontos com a demanda crescendo forte e pode ter maior ocupação da capacidade instalada. Isso ocorre principalmente nos setores de insumos básicos, onde você não constrói a capacidade do dia para a noite.

ABr – A preocupação, então, é com a pressão dos custos das matérias-primas?
Barbosa – A preocupação é mais pela pressão dos insumos do que da demanda. O reajuste do preço do minério de ferro e do aço vai influir na produção de automóveis. Então, ele pode pressionar pelo lado do custo. Na verdade, há uma preocupação em não deixar, em um contexto de consumo alto, que esse aumento de custo seja transmitido para o preço. Aí é que entra a questão do consumo, não que o consumo seja, em si, excessivo. É que, numa situação de demanda aquecida, com um aumento de custo, isso torna o insumo inicialmente um custo mais perigoso.

ABr – Esse efeito não pode ser potencializado com aquecimento do consumo?
Barbosa – O consumo não cria dificuldades. Ele é um dos sustentáculos do crescimento da economia brasileira. Uma das bases de modelo de desenvolvimento que estamos implantando é a ampliação do mercado do consumo de massa com inclusão de milhões de trabalhadores. O Brasil, diferentemente de outros países emergentes, tem um mercado interno grande que suporta uma base industrial, uma base de serviço sofisticada e diversificada. Essa é vantagem do Brasil. Não devemos tratá-la como um problema. O que há, obviamente, é que à medida que a economia cresce, o emprego e a renda também crescem e as pessoas vão consumir mais. Primeiro, as pessoas consomem bens de primeira necessidade como os alimentos. Depois, passam para bens de consumo duráveis de pequeno valor, como celular, DVD etc. Seguem para o computador, o automóvel e agora estão chegando em um bem que não é de consumo, que é a moradia.

ABr – Vamos insistir na questão do crédito, afinal se houver maior facilidade no crédito isso não pode servir de estímulo ao consumo?
Barbosa – O que há nesta questão do consumo é, talvez, uma preocupação com a sustentabilidade da expansão do crédito que, a meu ver, é sustentável. A questão é que o crédito no Brasil sempre foi muito reprimido. Por causa da inflação alta, as pessoas nunca tinham acesso ao crédito. Com a estabilização e com o aumento da renda, as pessoas estão tendo mais acesso ao crédito. Então, ele cresce rápido. Vai subir mais, mas os bancos obedecem às regras monitoradas pelo BC, que atribui o risco de forma correta a cada tipo de operação. Neste momento, o aumento do consumo, alimentado pelo crédito, está direcionado para os bens de consumo duráveis e esses bens não estão subindo tanto de preço porque estão sujeitos aos preços internacionais. Um exemplo são os equipamentos de TV, som e informática, que tiveram deflação de 9,81% de abril de 2003 a janeiro deste ano e isso se deve às importações, à valorização cambial e à inovação tecnológica. Os eletrodomésticos tiveram deflação de 1,36%, e os automóveis, um aumento de preços de 2,48%. Valores bem abaixo do centro da meta de inflação de 4,5%.

ABr – Na medida em que pode haver um desaquecimento lá fora, isso não pode se reverter para reduzir o preço dos insumos internamente?
Barbosa – Pode, mas isso entra em uma questão relativa ao preço das commodities, por isso há uma dúvida: o que acontecerá com o preço das commodities? Ficará estável ou cairá? Mas é muito difícil dizer se é bom ou ruim. No Brasil, a gente vê uma relação inversa entre preço de commodity e taxa de câmbio. Quando o preço da commodity cai, e isso é ruim para as exportações, é bom para a taxa de inflação, mas a taxa de câmbio sobe. Ou seja, uma coisa neutraliza a outra parcialmente. Quando a taxa de câmbio sobe, o preço da commodity cai. Foi o que ocorreu com o aço. No ano passado, o aço subiu de preço lá fora, mas aqui dentro não, por causa da taxa de câmbio que caiu. Uma coisa compensou a outra.

ABr – Quais os reflexos desse cenário de crise externa sobre nossa economia?
Barbosa – O importante é que o Brasil está numa situação boa. Se tivermos o pior cenário – que não é provável porque teríamos uma desaceleração forte atingindo a China, que derrubaria o preço das commodities e resultaria em aversão ao risco, reduzindo os fluxos de recursos ao Brasil – o principal problema seria uma pressão sobre a taxa de câmbio. A taxa subiria um pouco, mas não sairia do controle. Isso poderia causar pressões temporárias sobre a inflação. Mas é algo que não nos afeta como no passado. Porque qualquer impacto de um cenário ruim antes quebrava o Estado brasileiro, que era muito endividado e a dívida era atrelada ao dólar. Quando existia um problema desses, a dívida pública subia no dia da crise. Hoje, nós somos credores externos. Nos preparamos para que a política brasileira possa suportar choques. Não quero dizer que esse cenário desfavorável seja o mais provável. Pelo contrário. Acho que estamos num cenário mais intermediário, o preço das commodities permanece estável e a taxa de câmbio também. Por isso, acho que esse crescimento [da economia] é compatível com o crescimento da inflação.

ABr – E como fica a política monetária nesta conjuntura?
Barbosa – Houve, no ano passado, um choque no preço dos alimentos. Até a primeira semana dezembro, a inflação anualizada estava em 3,9%. Em quatro semanas, ela foi para 4,5% porque houve um choque no preço do feijão. Isso tirou o grau de liberdade da política econômica. Uma coisa é você estar com uma inflação de 3,9% ou 4%, outra coisa é estar com 4,5 %. Acho que isso foi um fator novo, um pouco inesperado. Por isso, o Banco Central não pode continuar reduzindo as taxas de juros porque trouxe um pouco de apreensão sobre o rumo. Nós estamos em um momento de esperar para ver. Essa montanha-russa [sobre os impactos da crise no Brasil] deve durar até o meio do ano, até que a situação fique mais clara nos Estados Unidos. Neste contexto, vale a pena ter um pouco de cautela, tanto na parte de política monetária quanto da política fiscal, que é conter os gastos de despesas correntes e fazer investimentos do PAC.

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