Jamil Salloum Jr. (PR)

Oração contra a futilidade

Jamil Salloum Jr.

Senhor,

Fazei com que os fúteis entendam que o conhecimento é mais importante que o penteado e a maquiagem;

Que uma visita à biblioteca é mais vital do que uma visita ao salão de beleza;

Que existe vida além das festas e coquetéis;

Que em um mundo em destruição, a destruição do mundo exige mais atenção do que a “última moda”;

Fazei-os entender, Senhor, que a grife mais importante não é a de roupas ou jóias, mas a do cérebro, e que só a ignorância é cafona;

Que os fúteis vejam, oh Senhor, que a vida é breve e que a morte apaga e leva tudo, menos o que fizemos em prol da educação da sociedade;

Senhor, perdoe-os por não ver que o livro vale mais que a estola; que a caneta é mais chique que o batom; e que educar uma criança é mais importante do que alimentar um poodle;

Oh, Pai, que os fúteis troquem, por um momento, as viagens a Paris, ao Caribe e ao Taiti, por visitas à Etiópia, à Índia e à Somália;

Que ao spa acrescentem uma estadia na sala de aula; que além da academia, freqüentem a Academia;

Que compreendam que a verdadeira beneficência é feita em silêncio e não sob holofotes;

Que vejam que do “jet set” nunca veio nada de importante para o mundo, ao contrário dos círculos que reúnem pensadores, pesquisadores, cientistas etc.

E que, por fim, os fúteis do mundo, Senhor, deixem um dia de ser fúteis e abram os olhos para a Luz do Conhecimento, que mata valores e faz nascer novos em seu lugar.

Amém!

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Acorde, Neo!

Jamil Salloum Jr.

A faculdade de apreensão de conceitos é característica comum dos seres viventes, variando em graus. Os animais apreendem, mas não compreendem. Manifestam inteligência, mas não autoconsciência, apanágio do homem. Apenas ao homem é facultada a possibilidade de transformar conceitos em concepções, por meio de reflexão, e, assim, transformar o ambiente e (re)construir o mundo.

É notável que muitos seres humanos, supostamente auto conscientes, vivem toda a vida como numa experiência onírica, sem, pela reflexão, questionar os dados que são oferecidos, do exterior, ao aparato sensório que lhes é próprio. Assim, vivem no mundo sem compreender o mundo. O mais grave é que desconhecem seu lamentável estado, daí o esforço de homens como Sócrates para provar que, na maioria das vezes, não se sabe, absolutamente, aquilo que se pensa que sabe. A maiêutica, ou parto de idéias, a arte da obstetrícia mental, era o maravilhoso recurso aplicado por aquela personagem singular, que espantou Atenas em sua época. Aliás, justamente por confrontar os homens com seus dilemas e paradigmas, com sua ignorância, é que o bom Sócrates, qual Cristo, foi assassinado, já em idade avançada.

O estado de vigília sempre é contraposto ao onírico, sendo que ambos constituem dois pólos da vida humana. Ao onírico toda sorte de explicações já foram oferecidas, e descobriu-se que, em dados momentos, pode apresentar rico cabedal de significados, com importância para a manutenção da saúde e da sanidade.

Acúmulo de dados não é conhecimento; existem grandes computadores humanos, com riquíssimo conteúdo. E só. Agem qual tambores: muito barulho, muita verborragia, mas quase nenhuma reflexão. Possuem memória prodigiosa, mas pouca discriminação. Logo, não conhecem, verdadeiramente, no sentido socrático. O discernimento verdadeiro permite transformar os dados apreendidos em novos dados, não apenas reter os antigos e reproduzi-los. Só aí podemos dizer que estamos trabalhando mentalmente. Mas como isso é raro! Mesmo nas Academias… Nestas uma tradição sub-reptícia foi criada, tradição de repetição de informações: a criação, a descoberta, a heurística verdadeira, é baldada. E não poucos alunos e professores prosseguem em uma rotina piedosa, em uma cantilena monótona, que, praticamente, pouca coisa acrescenta ao saber humano.

G. I. Gurdjieff escreveu: “Sugiro que cada um faça a si mesmo a pergunta ‘Quem sou eu?’ Estou certo de que 95% de vocês ficarão perturbados… Isso prova que um homem viveu toda a sua vida sem se fazer essa pergunta e considera perfeitamente normal que ele seja ‘algo’, e até mesmo algo muito precioso, algo que jamais pôs em dúvida. Ao mesmo tempo, é incapaz de explicar à outra pessoa o que esse algo é; é incapaz de dar a menor idéia desse algo, porque ele próprio não o sabe. E se não sabe, não será simplesmente porque esse algo não existe, mas apenas se supõe existir? Não é estranho que fechem os olhos, com tão tola complacência, ao que realmente são, e passem a vida na agradável convicção de que representam algo precioso? Esquecem de ver o vazio insuportável por trás da soberba fachada criada por seu auto-engano, e não percebem que essa fachada só tem um valor puramente convencional.” Está aí, magistralmente explicada, a experiência onírica durante a vigília, ou, popularmente dizendo, o sonhar acordado.

Sonhar acordado não é característica dos idealistas e  dos visionários; estes são os precursores da raça, os que, verdadeiramente, estão em estado de vigília; o resto vive uma só e constante experiência onírica, sem vigília autêntica. São máquinas: agem, funcionam, e só. Engana-se quem pensa que a mera operação intelectual constitui a preparação para a vigília autêntica. É necessário uma cognição superior, que não passa pela mente ordinária, mas que pode ser preparada por esta. Schopenhauer, e outros filósofos, entreviram o segredo, sem ousar defini-lo. Aos místicos foi aberta a porta, depois de calvários físicos e mentais.

O filme Matrix, baseado em Platão e Baudrillard, tratou sutilmente deste assunto. Acorde, Neo!

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Se penso, sou?

Jamil Salloum Jr.

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“Coisas ruins não são o pior que pode nos acontecer. O que de pior nos pode acontecer é NADA”, disse Richard Bach. Se uma pessoa está sempre satisfeita, se nunca sentiu uma ponta sequer de inquietação, ou preocupação, é digna de pena, porque não crescerá jamais. Não questionar, não duvidar, mas aceitar, e se contentar com tudo, automaticamente, sem tentar explorar as profundezas dos fenômenos que nos cercam, seus possíveis múltiplos significados, tem sido o mal da humanidade, em todas as épocas.

Autonomia consciencial, ou autonomia crítica, sempre foi a meta da Filosofia. “As abelhas constroem colméias que poderiam envergonhar a mais de um mestre-de-obras. Mas o pior mestre-de-obras é superior à melhor das abelhas, porque, antes de executar a construção, ele a projeta em seu cérebro”, disse o agnóstico Karl Marx. De fato, só o homem sonha, portanto, projeta abstratamente. Só ao homem foi dado tal privilégio, por isso pode transformar, como destruir, o mundo. Mas quantos seres humanos agem como animais, metódica e inconscientemente, escravos do hábito, sem jamais questionar o mundo em derredor… e o que é infinitamente pior: sem jamais questionar o seu próprio fenômeno humano!

Outro Karl, que não Marx, mas Jaspers, enfatizou que “O pensamento filosófico há de ser sempre original. Todo homem deve exercê-lo por si”, atingindo, com essa observação, o ponto nodal. Quem consegue pensar por si mesmo? Todos se apressariam em responder que o conseguem, sem perceber que o que fazem, na maioria das vezes, é meramente reproduzir conceitos e opiniões alheias outrora introjetadas no inconsciente por meios vários; opiniões que depois emergem  ao consciente sem que se desconfie de sua paternidade original, qual seja, não própria, mas alheia. E aí, orgulhosamente, pensamos que parimos uma idéia, quando só a vomitamos.

Para que entendamos melhor, consideremos este texto que ora escrevemos. As citações que até agora declinamos podem se converter em grande armadilha: está o autor deste artigo consciente da dimensão total de cada frase reproduzida ou apenas as reproduz, qual papagaio, pensando refletir por si mesmo? É fácil citar, enfeitar o texto; difícil é  (re)trabalhar a citação. Este é um dos dilemas de todo professor de Metodologia Científica: como é difícil fazer com que os alunos entendam que as citações devem sustentar um raciocínio prévio, não o contrário! Ou, se se inaugura o parágrafo com elas, devem imperiosamente ser glosadas. Mas, oh, quantos trabalhos não passam de uma “panarion” de citações, habilmente enfileiradas, dissimulando um vazio reflexivo…

Muitos seres humanos são como o desditoso aluno do exemplo acima: fazem de sua vida uma grande citação de terceiros, sem desconfiar que precisariam entender e redefinir o que citam. Ah, mas como já dito, não sabem que citam, e, sim, se apropriam da citação, imaginando-se os autores. Docta ignorantia… E a vida segue, travestida de originalidade, sendo, no fundo, mero simulacro.

Buddha foi um dos Mestres da humanidade que mais chamou a atenção para isso. “Oh, monges, nada aceiteis, mesmo do próprio Buddha. Primeiro refleti. Sede lâmpadas para vós mesmos!” Eis a verdadeira libertação. Crer porque se conhece previamente é diferente de crer sem conhecer.  Mesmo que a experiência comece com fé cega, depois do primeiro resultado ter-se-á fé na própria fé, pois se vivenciou seu poder. Já não é mais cega.

Nietzsche, herético e incompreendido, disse: “Caço homens, como verdadeiro corsário, não para vendê-los como escravos, mas para levá-los comigo para a liberdade.” Emocionante proclamação de um filósofo de verdade! O filósofo não pensa apenas para si, mas para seus semelhantes; deseja repartir seu pão. Por isso fala, por isso escreve. Que importa se hoje não for compreendido? Amanhã o será. Spinoza levou mais de um século para ser reconhecido…

Se pensamos, na total acepção, somos. Do contrário, só existimos…

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Caos no quadro negro

Jamil Salloum Jr.

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Quando escrevemos, em artigos anteriores, que muitas instituições de ensino superior do Brasil estão diplomando semi-analfabetos, leitores reclamaram do exagero de nossa parte. Evidentemente, utilizamos certo exagero para apontar uma realidade cada vez mais flagrante nos quadros educacionais do país: a cada vez mais presente insuficiência intelectual e cultural dos nossos alunos, de todos os níveis. Por exemplo, a prova realizado pelo Saeb, o exame federal de avaliação de aprendizagem, aplicada em São Paulo em 2005, revelou que 43,1% dos alunos do terceiro ano do segundo grau mostraram conhecimentos próprios de alunos da oitava série ginasial. O exame concluiu, ainda, que se os alunos de escolas particulares fossem retirados da pesquisa, o resultado seria ainda pior, uma vez que a média dos alunos das escolas públicas do estado é 21,2% inferior a dos de escolas particulares. Note-se que estamos falando de estudantes de um estado considerado “carro-chefe” do país, um estado próspero. Que resultados teríamos em estados mais carentes? Em vez de medidas para debelar o problema, observa-se no país a inauguração de Universidades em regime “fast food” e a redução do tempo de formação em alguns cursos para a metade. Visando rápido giro de “clientes” e o suposto aumento da “empregabilidade” (termo criado por José Augusto Minarelli na década de 90), uma formação generalista está se instaurando no país, que longe de contribuir com a qualidade, visa os cifrões da quantidade. O resultado é o que estamos assistindo: profissionais formados que não sabem escrever e/ou interpretar textos, além de terem péssimo nível cultural. A ganância de muitas instituições particulares de ensino, somada ao sucateamento das instituições publicas, vem traçando um horizonte cinzento para a educação brasileira. Não se pretende voltar à palmatória, mas é preciso reconhecer que em tempos idos a formação tinha outros rigor e nível. Se trouxéssemos, via máquina do tempo, um aluno do ensino médio da década de 40 ou 50, para concorrer com um aluno contemporâneo do mesmo nível, em uma prova de conhecimentos gerais (que, naturalmente, desprezasse as transformações que as décadas assistiram), incluindo redação e interpretação de texto, não duvidamos do resultado: aquele venceria este. Para agravar a situação, o Jornal Gazeta do Povo trouxe no ano passado (2007) a lamentável notícia de que 33 cidades do Paraná não possuem bibliotecas públicas. Voltando às salas de aula, independente dos “avanços” esporadicamente divulgados pelo governo, quem deu ou dá aula sabe que a situação é grave. Desde as primitivas escolas da Companhia de Jesus, com o seu “Ratio Studiorum”, no período imperial, às escolas contemporâneas, um longo caminho foi percorrido, com pífios resultados, a ponto de podermos afirmar que a educação de outrora esteve melhor, sob muitos aspectos, do que a atual.

Como é possível que país que produziu gigantes da educação como Anísio Teixeira e Paulo Freire ainda esteja engatinhando educacionalmente? “Educar é crescer. E crescer é viver. Educação é, assim, vida no sentido mais autêntico da palavra”, disse Teixeira.

Quando haverá consciência nacional disto?

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Você é um imbecil?

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Jamil Salloum Jr.

O caminho para a imbecilidade é fácil e confortável; o que conduz à sapiência é estreito e espinhoso. No primeiro não se exige qualquer esforço, absorve-se tudo passivamente; no segundo é preciso refletir, pensar, ponderar.

É triste ver que a TV brasileira, seguindo uma tendência mundial, continua celeremente em sua missão de formar imbecis. Pode-se dizer que 90% (para ser otimista) dos programas apresentados têm pouco valor para o refinamento do homem. E há o conhecido problema da a mídia estar, como, aliás,  sempre esteve, a serviço de interesses políticos e econômicos e não a serviço da cultura, da ilustração, do enlevo mental. Mídia independente? Ainda uma utopia.

Aberrações como Big Brother, Faustão, Gugu etc., e a maioria das telenovelas, formatam a mente, a “resetam”, para que só o supérfluo, o fútil, o eólico, tenha lugar. E o telespectador segue hipnotizado pelo carnaval de imagens, girando, girando, fazendo a mente circular e não focar seriamente em nada. Aliás, o nome Big Brother é muito apropriado para o programa da Globo, pois lembramos do Grande Irmão de Orwell, em 1984. Será que ninguém percebe o que está acontecendo?

A sedução é tão intensa que até quem gosta de pensar pode sucumbir se não tomar cuidado. A alternativa fica com as produções em  DVD, que podem trazer trabalhos de qualidade, se soubermos escolher com cuidado, e com os cinemas, que esporadicamente trazem produções dignas de nota. Mas o melhor remédio é, e continua sendo, a leitura selecionada. Mas ler dá trabalho, uma vez que os  bons livros obrigam à reflexão; já outras obras, como alguns romances novelescos populares, também anestesiam o discernimento. Sim, a leitura também imbeciliza, caso não escolhamos um bom material.

Então, caro leitor, será que você está a caminho da imbecilidade? Você passa mais tempo defronte à televisão do que defronte às páginas de um bom livro? Você costuma assistir a bons filmes e discutir seu conteúdo com os amigos ou prefere apenas absorver, qual esponja? Você dá mais valor à moda do que ao conhecimento? Você é daqueles que gostam de ler e assistir a tragédias, de prestigiar a mídia que só se ocupa em expor o pior lado do ser humano, que promove o vício em sangue? Cuidado! Você sofre de idactogenia e sua vida desenrola-se exatamente conforme com o que você coloca na mente.

O mundo não mudará de fora, a partir de medidas coletivas, mas a partir de mudanças internas, individuais, que refletirão no externo. Medidas coletivistas têm sua utilidade, mas não transformam o homem.

Na Psiquiatria a imbecilidade é definida como um grau intermediário do trio oligofrênico, colocada entre os débeis mentais e os idiotas. Pessoalmente consideramos que o retardo mental pode ser estimulado midiaticamente, pelo menos a algum grau. Apenas uma teoria, ainda em estudo.

Quando colocamos perguntas filosóficas como “o que é você?”, “o que realmente é este eu?”, “você vive ou é vivido?”, “por que você existe?”, a maioria arregala os olhos, emudece ou muda de assunto. É preferível voltar à zona de conforto mental, onde a reflexão não tem lugar, só a aceitação. É preferível ser conduzido, qual boiada, do que se destacar do coletivo e tentar despertar outros.

M. de Combi escreveu: “Algum dia, em algum lugar, inevitavelmente, irás te encontrar contigo mesmo. E só de ti depende que seja a mais amarga de tuas horas, ou o teu momento maior.”

Quem tiver ouvidos, que ouça.

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4 Comments

  1. Posted quarta-feira, 20, fevereiro 2008 - at 7:55 am | Permalink

    Parabéns pelo seu artigo!Felicidades nesse novo espaço!
    Yara

  2. Posted sexta-feira, 22, fevereiro 2008 - at 0:37 am | Permalink

    Jamil…
    Adorei o texto.
    E fiquei feliz por saber que não sou imbecil.
    kkkkkkkkkkkkkk
    Prefiro um livro a uma telenovela ou BBB.
    Abraço,
    Mta saúde, luz e paz!

  3. Posted quarta-feira, 19, março 2008 - at 15:05 pm | Permalink

    Sobre “Caos no quadro negro” nos dias atuais, trouxe-me a doce lembrança de que no meu primário, pelo ano 1966, tive o prazer de conhecer e ler vários autores da nossa literatura brasileira. Infelizmente hoje…uma pena! Parabéns pelo seu artigo. Eva.

  4. Scheila Macedo
    Posted sexta-feira, 2, maio 2008 - at 13:09 pm | Permalink

    Jamil, querido,

    Estava pensando em vc hoje e resolvi te ligar. Ouvi sua voz, mas parece que vc não ouvia a minha.
    Gostaria de parabenizá-lo por este espaço e pelo seu programa de tv (vi alguns vídeos no youtube). Adorei tudo e fiquei muito satisfeita com as suas conquistas. Vc merece!
    Estou com saudades das nossas conversas sobre a vida, espiritualidade, …

    Beijo grande,
    Scheilita


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